08/02/2016

O Sudário de Oviedo


Com toda certeza a esmagadora maioria de vocês, cristãos ou não, já devem ter ouvido falar do famoso Sudário de Turim, ou o santo Sudário, mas pouca gente sabe que existe outra peça de tecido que, segundo o mito, teria sido usado para cobrir o corpo de Jesus após sua execução: o Sudário de Oviedo. Segundo uma tradição, a antiga capital das Astúrias conserva desde o século VIII o “Sudário do Senhor”. Pesquisas científicas reconheceram nele manchas de sangue compatíveis com as do Sudário de Turim.

Há vário anos são realizadas pesquisas científicas longe do conhecimento popular, a respeito do sudário conservado na Catedral de São Salvador de Oviedo (Astúrias, norte da Espanha). Trata-se de uma peça de tecido retangular, parcialmente regular, de linho, com cerca de 53 por 86 centímetros, de composição igual à do Sudário de Turim, no que diz respeito às dimensões das fibras, à fiadura e à torcedura, com exceção da trama, cuja urdidura é ortogonal, enquanto a do Sudário de Turim é no formato de espinha de peixe. A olho nu, pode-se ver apenas manchas de cor castanho-claro, de variada intensidade, que revelaram-se oriundas de sangue humano; exames microscópicos mostraram também outras manchas de sangue (algumas puntiformes), além de vestígios de pólen, de aloé e de mirra. Fontes históricas tradicionalmente relacionam o Sudário com a paixão de Jesus; o Sudário é exposto aos fiéis três dias por ano: na Sexta-Feira Santa e no primeiro e no último dia do Jubileu da Santa Cruz, ou seja, em 14 de setembro (festa da Santa Cruz) e 21 de setembro (festa de São Mateus).


A história

As notícias que nos chegaram a respeito de sua história derivam sobretudo da reconstrução medieval feita no Liber Testamentorum por Pelágio, bispo de Oviedo de 1101 a 1130 (ano em que foi deposto), e que morreu em 1153. Pelágio afirma que o Sudário, proveniente do sepulcro de Jesus, foi preservado em Jerusalém, com outras relíquias, numa arca de madeira de cedro, e que ali permaneceu até a época da conquista da cidade pelas mãos dos persas de Cosroes II, em 614, quando um monge de nome Filipe fugiu, levando-a para Alexandria do Egito. Quando os persas chegaram também ali, em 616, Filipe transportou a arca do Norte da África para a Península Ibérica, entregando-a a São Fulgêncio, bispo de Ecija, que a deu a seu irmão, São Leandro, bispo de Sevilha (na realidade, Leandro morreu por volta do ano 600). Santo Isidoro, também irmão de Leandro e seu sucessor, doou-a a seu aluno Santo Ildefonso (607-667), que, quando foi consagrado bispo de Toledo, em 657, levou-a consigo para a capital do reino hispano-visigótico.

Podemos acrescentar a essas notícias de Pelágio uma referência feita ao “Sudário do sepulcro de Cristo” em 570 pelo peregrino Antonino de Piacenza, que sabia de seu paradeiro na gruta de um mosteiro localizado às margens do rio Jordão, perto de Jericó (mas não afirma tê-lo visto); ao mesmo tempo, São Bráulio, bispo de Saragoza de 631 a 651, fala de ter reencontrado o Sudário (não fica claro onde, mas, provavelmente, na Espanha). Outro peregrino, porém, o bispo Algulfo, diz ter visto o Sudário em Jerusalém em 670.

Ainda segundo Pelágio, de Toledo, por medo dos árabes, que tinham começado a invasão da Espanha em 711, o Sudário e as outras relíquias, postos numa nova arca de carvalho, foram transferidos diretamente para Oviedo, nas Astúrias. Uma outra tradição, talvez mais confiável, diz que nessa ocasião o Sudário e as relíquias foram escondidos num eremitério no alto do Monsacro, uma montanha a dez quilômetros de Oviedo. Só por volta de 840 o rei das Astúrias Afonso II, o Casto (791-842), teria levado esses objetos para Oviedo: para tanto, mandou construir dentro de seu palácio a “Câmara Santa”, uma capela que desde então hospeda a arca com as relíquias (atualmente, a capela está incorporada ao interior da catedral gótica de São Salvador, construída no século XIV).

Depois de uma possível abertura da arca que talvez tenha ocorrido nas primeiras décadas do século XI, um documento de 14 de março de 1075 (do qual se conserva uma cópia do século XIII no arquivo da Catedral de Oviedo) atesta um reconhecimento que teria ocorrido no dia anterior, na presença do rei de Castela e de Leão Afonso VI (1065-1109), e nos fornece o primeiro inventário do conteúdo da arca, mencionando expressamente “de Sudario eius [Domini]”. Essa menção aparece também no revestimento de prata da arca, encomendado pelo mesmo Afonso VI e realizado alguns anos depois de sua morte, como testemunha a data gravada no metal (1113).

Outro reconhecimento do conteúdo da arca ocorreu no tempo do bispo Diego Aponte de Quiñones (1585-1598), quando o rei Filipe II ordenou um novo inventário das relíquias, na presença de seu enviado Ambrosio de Morales.

A história do Sudário, portanto, tendo como fonte substancialmente a um testemunho muito tardio (de pleno século XII), pareceria não ter muitos requisitos de confiabilidade. No entanto, contra todas as expectativas, as pesquisas científicas não a contradisseram, antes reforçaram.

Investigações científicas

Os primeiros estudos sobre o Sudário se devem, a partir de 1965, a monsenhor Giulio Ricci, que levantou analogias desse objeto com o Sudário de Turim, que estudara em profundidade. Pesquisas mais recentes (o último congresso internacional de estudos sobre o Sudário realizou-se em Oviedo em abril de 2007), realizadas ainda hoje pelo Edices (Equipo de Investigación del Centro Español de Sindonología), puderam averiguar, em primeiro lugar, que o tecido foi depositado sobre o rosto de um homem, já morto, dobrado e fixado atrás de sua cabeça. Uma série de quatro manchas, especulares em ambos os lados do pano dobrado, mostrou-se composta por uma parte de sangue e seis partes de líquido hedemático pulmonar, substância que se acumula nos pulmões em razão da morte por sufocamento, como a que acontece depois de uma crucifixão. O homem a quem pertence o sangue presente no Sudário de Oviedo morreu, portanto, das mesmas causas do homem do Sudário de Turim. Algumas das manchas se sobrepõem a outras, de modo que fica claro que estas já estavam secas quando se formaram aquelas; assim, os estudiosos puderam estabelecer também que o Sudário foi aplicado sobre o rosto do defunto em pelo menos dois momentos distintos. Entre as manchas, distinguem-se também impressões digitais, dispostas na região ao redor da boca e do nariz, provavelmente deixadas por alguém que procurava deter o fluxo de sangue do nariz, depois que o pano envolveu a cabeça. Além das manchas de líquido hedemático, aparecem outras, de um tipo diferente, entre as quais pontinhos de sangue causados por pequenos corpos pontiagudos, talvez espinhos.

Mas a coincidência mais notável é que as manchas no Sudário de Oviedo mostraram correspondência geométrica com as do Sudário de Turim, sendo, além disso, um pouco mais estendidas. A impressão do nariz, medida tanto no Sudário de Turim quanto no de Oviedo, apresenta o mesmo comprimento, de oito centímetros. Pesquisas realizadas em 1985 e repetidas em 1993 demonstraram que o sangue do Sudário de Oviedo pertence ao grupo AB, comum no Oriente Médio, mas raro na Europa, o mesmo encontrado no Sudário de Turim. Não obtiveram êxito, porém, os exames de DNA, cujo resultado foi fragmentado demais e, portanto, inutilizável, e de carbono 14, que deu uma datação do século VII d.C., considerada não confiável pelos próprios realizadores do teste, em razão da contaminação excessiva das amostras.

São também do Oriente Médio, como ocorre no caso do Sudário de Turim, os grãos de pólen encontrados no Sudário de Oviedo, estudados em 1979 pelo biólogo Max Frei, que demonstrou que são incompatíveis com o ambiente palestino do século I. Em particular, Frei encontrou vestígios de pólen provenientes de seis tipos de plantas. Duas eram características da Palestina: quercus calliprinos etamarindus. Os outros grãos de pólen provinham do Norte da África e da Espanha, confirmando, inesperadamente, o itinerário do Sudário descrito pelo bispo Pelágio. Por fim, pertence também à Palestina do século I, igualmente ao que se dá no caso do Sudário de Turim, o tipo de lavor do linho, material de que é feito o objeto.

Todos os resultados científicos parecem, portanto, levar a concluir que o Sudário de Oviedo e o Sudário de Turim tenham estado em contato com a mesma pessoa (isso não significa que ambos tenham coberto o corpo de Jesus - essa é outra linha de investigação científica e teológica - , mas sim que ambos sudários receberam as suas marcas no mesmo momento). E isso teria acontecido em momentos próximos, mas diferentes: certamente, primeiro o Sudário de Oviedo, depois o de Turim, tanto porque a maior amplitude das marcas pressupõe um sangue mais fluido, quanto pelo fato de, no Sudário de Oviedo, só haver sangue, mas não uma imagem negativa como a que aparece no Sudário de Turim, que sabemos ter sido formada num momento posterior ao das manchas de sangue. Levando em conta o que foi possível observar, foi levantada a hipótese de que o Sudário de Oviedo possa ser o lenço que, segundo o uso judaico, serviu para cobrir o rosto de Jesus durante o transporte da cruz para o sepulcro, mas que foi retirado antes que o corpo fosse envolto pelo Santo Sudário; justamente por estar empastado de sangue, teve de ser deixado no sepulcro (em obediência às prescrições fúnebres judaicas). Não podemos, porém, estabelecer se esse é o sudário que João viu e de que fala em seu Evangelho.
(Lorenzo Bianchi)

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