08/03/2016

O assombrado Edifício Martinelli


Um dos pontos turísticos mais interessantes de São Paulo, o Edifício Martinelli é também um arquivo de histórias misteriosas envolvendo personagens de uma metrópole que cresceu aos atropelos. De "point" da elite a cortiço, o prédio foi palco de prostituição, suicídios, tráfico de drogas e assassinatos jamais solucionados. Convido os amigos e amigas a conferirem um pouco mais sobre esse interessante assunto que nos foi sugerido pela grande amiga, e madrinha do blog Noite Sinistra no Twitter, Elaine Lenhagui (@lenhagui).

O prédio é considerado por muitas pessoas assombrado, ou mesmo amaldiçoado, visto a ocorrência de alguns crimes estranhos ocorridos no local e amplamente noticiados por jornais na época. As mortes que o gigante de concreto testemunhou se transformaram em histórias de fantasma, com direito a portas que se fecham sozinhas e vultos sombrios nos corredores.

Entre os que encontraram seu fim nos corredores e apartamentos do edifício está Neide, uma jovem com um passado obscuro encontrada morta em 30 de junho de 1965 no terreno de um prédio vizinho ao Martinelli. Sua morte e a investigação policial foram seguidas de perto pelo "Notícias Populares", que também relembrou outros crimes ocorridos ali.

O Edifício Maldito

Inaugurado em 1929, o primeiro arranha-céu da cidade (tem 30 andares) reunia a nata da sociedade paulistana nos aposentos e bar do hotel São Bento e nas matinês do cine Rosário. Localizado entre as ruas São Bento, São João e Líbero Badaró, no centro, era o orgulho da cidade.

A ousadia da obra do imigrante italiano Giuseppe Martinelli não salvou o edifício de uma lenta decadência: endividado, o conde precisou vendê-lo para um instituto italiano, que administrou o gigante até meados da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, o governo confiscou os bens de italianos no país e, assim, o Martinelli passou ao domínio público. Com o fim do conflito, o prédio foi progressivamente ocupado por moradores menos ilustres, que buscavam ali uma opção de moradia barata perto do trabalho.

As mortes e o início da fama de amaldiçoado

O cinema fechou, o hotel deixou de ser chique e o Martinelli, rebatizado de edifício América, passou a ser um dos maiores cortiços da cidade já nos anos 1950. Das colunas sociais migrou para as páginas policiais do "NP" em reportagens horripilantes. No caso de Neide, a matéria de 1º de julho ("Mundana jogada do alto do Martinelli") contava que os operários que trabalhavam na construção do prédio vizinho encontraram o corpo "em estado deplorável, o rosto deformado, numerosas fraturas expostas e o antebraço direito desligado do tronco".


A moça parecia ter caído de uma altura considerável. A Delegacia de Homicídios descartou logo de cara a hipótese de assassinato e ficou com a de suicídio. Mas análises preliminares do Instituto Médico Legal constataram que o corpo de Neide apresentava sinais de estrangulamento e marcas de choques nas mãos. O caso precisava ser analisado de novo.


As investigações elucidaram aos poucos a vida de Neide: trabalhava na chapelaria da boate Oasis, tinha 17 passagens pela polícia e era viciada em jogo. Sua irmã Neuza contou à polícia que a moça, antes de morrer, andava às voltas com uma dívida de Cr$ 100 mil no carteado. Não morava no Martinelli, e ninguém sabia dizer o que a levara até lá. Nenhum dos moradores ou frequentadores a viu entrar, e a polícia penava para descobrir o andar ou apartamento do qual Neide caiu.



Quando morreu, portava apenas um porta-moedas e a chave de seu apartamento na alameda Barão de Limeira. Em sua casa, a polícia encontrou um recado para a irmã: "Voltarei logo". Apesar da dívida e da vida desregrada, a equipe do "NP" não acreditava que Neide cometera suicídio e apostava na hipótese de tortura (as marcas de choques eram uma pista) seguida de morte.

Em 13 de julho de 1965, o jornal anunciava: "Neide jogada do prédio depois de assassinada!". Ela podia ter sido atirada de uma das janelas depois de morta, de acordo com a opinião de alguns policiais. Mas a falta de pistas desnorteava as investigações; era mais um mistério que o Martinelli guardava e que levaria a polícia a arquivar o caso.

Em 1974 o jornalista Ary Morais resgatou algumas dessas histórias escabrosas na coluna "Grandes crimes no prédio Martinelli". A série foi publicada no "NP" de 3 a 9 de janeiro e trazia, além do caso de Neide, os do garoto Davilson e da adolescente Rosa. Sobre Neide, quase dez anos depois de sua morte o jornal revelava que cálculos da polícia demonstraram que ela caíra (ou fora jogada) do 17º andar, e que seu amante, um estelionatário argentino, nunca foi encontrado para ajudar a esclarecer a morte.


O prédio, pelo visto, já assombrava delegados há muitos anos. Em 9 de março de 1947, os jornais da época noticiaram discretamente que um cadáver fora encontrado no Martinelli. O corpo era de um adolescente e, além de coberto de ferimentos, estava sem paletó e com as calças descidas até o joelho. O morto era Davilson Gelisek, de 14 anos, que morava com a família no centro e trabalhava em uma alfaiataria na rua Senador Feijó.

Quatro dias antes de ser encontrado naquela situação, o garoto foi trabalhar normalmente. Saiu para entregar algumas encomendas e não voltou mais. A autópsia revelou que a causa do óbito foi a queda de grande altura, mas, mesmo com o registro de várias escoriações no cadáver, o delegado que cuidava do caso concluiu que fora acidente. Na boca do povo prevaleceu a tese de que Davilson participava de uma das orgias que aconteciam nos apartamentos do Martinelli quando foi morto.

Ao que parece, a Justiça sempre deu com a cara nas portas do prédio: na noite de 9 de agosto de 1972, mais um assassinato ocorria ali e seria também arquivado por falta de provas. Desta vez era Rosa dos Santos, uma loirinha de 17 anos que, segundo testemunhas, estivera com um homem no hotel São Bento. Seu corpo foi encontrado pelo funcionário de um banco vizinho ao Martinelli que fazia hora extra quando ouviu um grande barulho: da janela do 2º andar, viu a moça estatelada no térreo do prédio.

Um sapato de Rosa foi encontrado no 17º andar e sabe-se que ela passou por um baile antes de encerrar o dia no Martinelli. O tal senhor que a acompanhava naquela noite não foi reconhecido por ninguém e nunca foi encontrado. Sem mais evidências, a polícia seguiu o padrão e arquivou o caso.

Poucos anos depois da morte de Rosa, em 1975, assumiu a Prefeitura de São Paulo o engenheiro e banqueiro Olavo Setúbal, que decidiu ressuscitar o edifício América. Os apartamentos de propriedade privada foram comprados e todos os moradores foram desalojados. A restauração preservou alguns traços originais do edifício e passou por cima de outros, tudo com financiamento da própria prefeitura e de alguns bancos.

O edifício Martinelli recuperou seu nome e foi reinaugurado por Setúbal em 1979. Desde então, abriga algumas secretarias municipais, lojas, cafés e escritórios, e recebe centenas de visitantes diariamente. Embora pareça baixinho perto de outros prédios mais modernos, sua arquitetura e o terraço restaurado mantêm o local como um dos preferidos dos paulistanos. Quanto aos assassinatos, são agora apenas uma boa história para turistas.

Agradecimentos a amiga Elaine Lenhagui (@lenhagui) pela sugestão.

Fontes: F5 e Sinistro ao Extremo

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