20/04/2017

George Whitmore: O homem que, enganado pela polícia, assinou a confissão de um crime que não cometeu


Era abril de 1964, a polícia abordou George Whitmore em uma rua do Brooklyn, na cidade americana de Nova Iorque. George era um afro-americano tímido de 19 anos que nunca teve problemas com a lei. No momento da abordagem ele estava apenas esperando alguns amigos que iam levá-lo ao trabalho. A polícia disse que precisavam de sua ajuda para resolver um crime, e o levaram à delegacia. Mais tarde a polícia divulgou a notícia que George havia assumido a autoria de vários crimes.

O jovem confessou que tinha violado uma mulher do bairro e também admitiu ser o culpado do crime mais famoso de Nova Iorque naquela época: o assassinato das "Career Girls", Janice Wylie e Emily Hoffert. No entanto, George não tinha cometido nenhum destes crimes. Só queria ira para casa, e acabou sendo enganado pelos policiais.

Janice Wylie e Emily Hoffert

O crime

Janice e Emily eram duas mulheres que foram a Nova Iorque com o objetivo de começar suas carreiras profissionais (esta foi a razão pela qual o caso ficou conhecido como "Career Girls"), e dividiam um apartamento.

A primeira, Janice, era uma loira de uma família rica e poderosa que trabalhava na sede da revista Newsweek. Era sofisticada e gostava de sair. Ainda que trabalhasse para uma revista e vinha de uma família de escritores, seu objetivo era ser atriz.

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Emily, sua colega, era o contrário. Nascida em Minnesota, Emily era uma morena tímida que trabalhava no mundo acadêmico. Acabara de se formar com méritos em literatura inglesa e russa e estava a ponto de começar sua carreira como professora em Nova Iorque.

Em 28 de agosto de 1963 o mundo estava de olho na manifestação de Martin Luther King Jr em Washington. Na Newsweek, onde Janice trabalhava, estavam especialmente ocupados informando sobre o que estava acontecendo em Washington. Quando ela não se apresentou no trabalho esse dia, ligaram e ela não respondeu.

Mais tarde, os colegas de Janice se inteirariam de que Janice e Emily tinham sido assassinadas em seu apartamento em Manhattan. Seus corpos encontraram-se em um dos quartos amarrados com tiras de um lençol. Foram apunhaladas várias vezes e estavam cobertas de sangue. Ademais, o responsável tinha violado Janice.



Investigações

Inicialmente, a polícia acreditava que as vítimas conheciam o assassino. O nível de violência encontrado é geralmente uma indicação de uma relação pessoal com a vítima. Não havia sinais de entrada forçada e o apartamento, que estava no terceiro andar de um prédio de nove andares, também era vigiado por um porteiro. Embora o apartamento estava em desordem, nada parecia ser roubado, logo essa hipótese acabou sendo descartada. As mãos e os pés das vítimas estavam amarrados, Wylie estava nua e Hoffert vestida. Duas facas cobertas de sangue de 10 a 12 polegadas foram encontradas ao lado dos corpos e uma faca adicional em um dos dois banheiros.

A polícia teorizou que as mulheres foram atacadas e assassinadas no quarto onde seus corpos foram descobertos. Eles não divulgaram imediatamente informações sobre o estupro de Wylie. Na verdade, eles disseram à imprensa que não parecia que elas foram violadas, mas a autópsia pode revelar o contrário. A polícia declarou que as mulheres foram cortadas repetidamente no pescoço e no abdômen.

Inicialmente a polícia se dedicou a entrevistar pessoas que faziam parte do livro de endereços de Janice Wylie, porém esse procedimento não levou a nenhum suspeito.

Uma recompensa de US $ 10.000 foi estabelecida para ajudar na apreensão de um culpado.


George Whitmore é "escolhido" como autor dos crimes

O assassinato deixou impressão na cidade, afetando especialmente às mulheres. Janice e Emily viviam sozinhas e suas mortes criaram a impressão de que as cidades não eram seguras para as mulheres. Em um livro publicado em 1964 intitulado, "Career Girl, Watch Your Step", o pai de Janice, Max, tinha uma mensagem para as mulheres.

- "Ainda que você se sinta cômoda em sua comunidade, nunca se atreva a sentir-se segura. Você deve sentir-se ameaçada. Está sob ameaça. Nunca está segura", escreveu Max Wylie.

Atribuíram um monte de detetives para investigar o caso, mas não conseguiram avançar até que prenderam George meses depois para interrogar sobre outros crimes sem relação a "Career Girls". Ao prendê-lo, a polícia encontrou uma foto de uma mulher branca em sua carteira. Identificaram a mulher na foto como Janice Wylie e determinaram que George agora era um suspeito no caso.

George foi interrogado durante horas pela polícia. Durante o interrogatório, mentiram e manipularam o rapaz. Ao final, convenceram-lhe para que assinasse uma confissão onde admitia ter matado Janice e Emily, ter violado uma outra mulher chamada Elba Borrero e ter matado uma terceira Minnie Edmunds. Em 25 de abril de 1964, a seguinte notícia estampava as capas do jornais:


- "O comissário de polícia declarou hoje que um negro de 19 anos confessou ter matado Janice Wylie e Emily Hoffert em seu apartamento no East Side no passado 28 de agosto."

O verdadeiro assassino

George não tinha cometido nenhum dos crimes que confessou. O jovem, que nunca tinha terminado o segundo graus, declararia mais tarde que quando assinou a confissão não sabia o que era. Disse que o fez porque queria acabar com o interrogatório e ir embora para casa.

As provas demonstravam sua inocência. Ele estava em New Jersey no dia em que as "Career Girls" foram assassinadas. Ademais, George afirmou que podia dar à polícia vários nomes de pessoas que tinham estado com ele esse dia. Mesmo assim foi imputado pelo assassinato das moças duas vezes e também julgado pelos outros crimes que confessou.

No ano de 1965, a polícia tinha evidências de que George não tinha assassinado a Janice e Emily. A foto que encontraram em sua carteira resultou ser de outra garota. Em realidade, após investigações descobriram que o crime foi cometido Richard "Ricky" Robles, um ladrãozinho do Bronx viciado em heroína. Ricky tinha entrado no apartamento das garotas naquela dia para roubar quando se encontrou com Janice e a violou.


Quando ele estava indo embora, ela lhe disse que se lembraria de sua cara e que descreveria tim-tim por tim-tim à polícia. Foi nesse momento quando Ricky as matou.

O impacto hoje

George foi preso e solto muitas vezes pelos crimes que confessou até 1973, quando foram retiradas todas as acusações contra ele. Ele processou a cidade de Nova Iorque pela falsa acusação e foi indenizado com 500 mil dólares.


Em 1966, a corte Suprema dos Estados Unidos citou o caso de George como um exemplo da pressão policial e estabeleceu os direitos que assistem às pessoas sob suspeita criminosa. Entre eles está o direito a permanecer em silêncio e a consultar um advogado. Hoje em dia consideram que o caso de George teve um papel importante nesta decisão.

O caso de George Whitmore, juntamente com o de George Stinney, são considerados como grandes exemplos de como a justiça norte americana tratou certos crimes com olhos cheios de preconceito racial em décadas passadas. George Stinney (leia AQUI sobre ele) foi a pessoa mais jovem a ser condenada a morte nos EUA. Ele foi executado em 1944 pelo homicídio de duas meninas loiras, crime que ele não teria cometido. Seu caso foi tão emblemático que teria até inspirado Stephen King quando este escreveu o livro "A espera de um milagre".


Fontes: MDig e Wikipédia

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2 Comentários
Comentários
2 comentários:
  1. "Inicialmente, a polícia acreditava que as vítimas conheciam o assassino. O nível de violência encontrado é geralmente uma indicação de uma relação pessoal com a vítima. Não havia sinais de entrada forçada e o apartamento, que estava no terceiro andar de um prédio de nove andares, também era vigiado por um porteiro. Embora o apartamento estava em desordem, nada parecia ser roubado, logo essa hipótese acabou sendo descartada."
    Descartaram o assassino conhecer a vítima por ele não ter roubado nada? Isso não fez muito sentido pra mim...
    Ademais, revoltante esse racismo e essa imposição de medo às mulheres. No mínimo, ele conseguiu a indenização.

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