17/05/2013

Conto de Terror: O Homem do Cortador de Grama (Stephen King)


Pois bem meus amigos e amigas, hoje continuo com minha postagem semanal de contos de terror. O escritor da vez é o mestre Stephen King (se quiserem conhecer melhor esse escritor, que para muitos é o grande mestre do terror da atualidade, cliquem aqui). Todos que me conhecem sabem do meu fascínio pelos livros de King. Gosto da forma com que ele passeia pelos diferentes estilos do terror. O texto abaixo conta uma história um tanto absurda e surreal, sendo esse um dos meus contos favoritos. O Homem do Cortador de Grama é um dos contos que compõe o livro Sombras da Noite. Esse texto foi retirado do blog da minha grande colega Claudia Lima Pereira, o surpreendente Creepy World. Espero que aproveitem...


O Homem do Cortador de Grama

Em anos anteriores, Harold Parkette sempre se orgulhara de seu gramado. Possuíra um grande cortador Lawnboy prateado e pagava ao garoto que morava no mesmo quarteirão cinco dólares por cada vez que o usava para aparar o gramado. Naqueles tempos, Harold Parkette acompanhava os jogos do Boston Red Sox pelo rádio, com uma cerveja na mão, sabendo que Deus estava no céu e tudo corria bem neste mundo, inclusive seu gramado. No ano passado, porém, em meados de outubro, o destino pregara uma peça de mau gosto em Harold Parkette. Enquanto o garoto aparava a grama pela última vez naquela estação, o cão dos Castonmeyer perseguira o gato dos Smith e este fora apanhado pelo cortador de grama.

A filha de Harold vomitara meio litro de refresco de cereja no macacão novo e sua esposa tivera pesadelos durante uma semana. Embora tivesse chegado ao local após o acidente, chegara a tempo de ver Harold e o garoto, de cara esverdeada de enjôo, limpando as lâminas do cortador. A filha dos Parkette e a Sra. Smith ficaram por perto, chorando, embora Alícia fizesse um intervalo para trocar o macacão por um par de blue jeans e um daqueles revoltantes suéteres apertados. Ela era gamada pelo rapaz que aparava o gramado.

Após uma semana de escutar a mulher choramingar e engolir em seco na cama ao lado, Harold resolvera livrar-se do cortador de grama. De todo modo, supunha que não necessitava de um cortador de grama. Até então, pagava um rapaz; dali em diante, pagaria um rapaz com um cortador. E talvez Carla parasse de gemer durante o sono.

Talvez ele até conseguisse voltar a trepar com ela.

Portanto, levou o Lawnboy prateado à loja Sunoco de Phil e este começou a regatear.

Harold saiu da loja com um pneu Kelly novinho em folha e o tanque do carro cheio de gasolina azul, enquanto Phil colocava o Lawnboy prateado em lugar de destaque perto de uma das bombas de gasolina em frente à loja, com o letreiro À VENDA pintado a mão.

E este ano, Harold simplesmente ficou adiando a contratação de alguém para aparar a grama. Quando, afinal, telefonou para o garoto do ano passado, a mãe dele informou que Frank fora estudar na Universidade Estadual. Harold sacudiu a cabeça, maravilhado, e foi à geladeira pegar uma cerveja. O tempo voava, não é mesmo?

Universidade... Meu Deus!

Continuou a adiar a solução do problema até que primeiro de maio passou e, depois, junho se escoou com o Red Sox num discreto quarto lugar do campeonato. Nos fins de semana, Harold sentava-se na varanda dos fundos e observava soturnamente uma infindável procissão de rapazes que ele nunca vira antes aparecerem para dizer alô antes de arrastarem sua viçosa filha para o cinema local. E a grama crescia e vicejava de modo maravilhoso. Foi um bom verão para os gramados; três dias de sol intercalados com um de chuva fina, com a regularidade de um relógio.

Em meados de julho, o gramado mais parecia uma campina que o quintal de um homem de classe média residente num bom subúrbio e Jack Castonmeyer começou a fazer todos os tipos de piadas extremamente sem graça, a maioria das quais referentes ao preço do feno e da alfafa. E Jenny, a filha de quatro anos de Don Smith, passou a esconder-se ali quando havia mingau de aveia no café da manhã ou espinafre no jantar. 

Um dia no final de julho, Harold saiu para o pátio quando o jogo estava quase terminando e viu uma marmota passeando alegremente na alameda coberta pela grama crescida. Chegara a hora, decidiu ele. Desligou o rádio, pegou o jornal e procurou a seção de classificados. E na metade da coluna de Serviços em Tempo Parcial, encontrou o seguinte: Aparo gramados. Preço razoável 776-2390.

Harold telefonou para aquele número, esperando ser atendido por uma dona-de-casa ocupada em passar o aspirador de pó na sala, que gritaria para chamar o filho que estava no jardim. Ao contrário, foi atendido por uma voz severamente profissional que disse:

― Serviço de Jardinagem Pastoral... em que podemos servi-lo?

Cautelosamente, Harold explicou à voz de que maneira o Serviço de Jardinagem Pastoral poderia servi-lo. Chegara àquele ponto, então? Os aparadores de grama abriam firmas e contratavam pessoal de escritório? Perguntou à voz pelo preço e a voz mencionou um preço realmente razoável.

Harold desligou com uma insistente sensação de inquietação e voltou à varanda dos fundos. Sentou-se, ligou o rádio e observou seu viçoso gramado, fitando depois as nuvens que se movimentavam lentamente no céu de sábado. Carla e Alícia estavam na casa de sua sogra e ele estava sozinho. Seria uma agradável surpresa para elas se o rapaz que viria aparar o gramado terminasse antes que voltassem.

Abriu outra cerveja e suspirou quando Dick Drago fez uma péssima jogada e perdeu o ponto. Uma leve brisa soprava na varanda fechada por uma tela. Os grilos cantavam baixinho na grama comprida. Harold grunhiu um comentário desagradável a respeito de Dick Drago e começou a cochilar.

Acordou meia hora mais tarde, sobressaltado pela campainha da porta da frente.

Derramou a cerveja ao levantar-se para atender.

Um homem trajando macacão de brim sujo de grama estava parado em frente ao alpendre, mascando um palito. Era gordo. A curva da barriga empurrava o desbotado macacão de tal forma que Hsrold teve a impressão de que o sujeito engolira uma bola de basquetebol.

― Sim? ― disse Harold Parkette, ainda zonzo de sono.

O homem sorriu, rolou o palito de um canto para outro da boca, ajeitou os fundilhos do macacão e depois empurrou o boné de beisebol para o alto da testa. Havia uma mancha fresca de óleo de motor na pala do boné. E ali estava o homem, cheirando a grama, terra e óleo, sorrindo para Harold Parkette.

― O Serviço Pastoral me mandou, companheiro ― disse ele em tom jovial, coçando a virilha. ― Você chamou, certo? Certo, companheiro?

Continuou a sorrir, interminavelmente.

― Oh... O gramado... Você?

Harold fitava-o estupidamente.

― Exato: eu.

O aparador de grama soltou uma gargalhada na cara inchada de sono de Harold.

Harold afastou-se desajeitadamente e o aparador de grama avançou a passos pesados, atravessando o vestíbulo, a sala de visitas e a cozinha, chegando à varanda dos fundos.

Agora, Harold reconhecera o homem e tudo estava bem. Vira o tipo antes, trabalhando para o departamento de obras sanitárias e nas turmas de conservação da auto-estrada.

Sempre com um minuto de sobra para se apoiarem nas ferramentas e fumarem Lucky Strikes ou Camels, olhando para os outros como se fossem o sal da terra, capazes de lhe pedir cinco pratas emprestadas ou de dormir com sua mulher quando lhes desse na cabeça. Harold sempre sentira um leve medo de homens assim; eram sempre bronzeados de sol, tinham sempre pés-de-galinha nos cantos dos olhos e sempre sabiam como agir.

― O gramado dos fundos é a parte principal do serviço ― disse ele ao homem, engrossando subconscientemente a voz. ― É quadrado e não existem obstruções, mas a grama está muito crescida.

Sua voz voltou ao tom normal e ele a ouviu desculpar-se:

― Acho que me descuidei demais.

― Tudo bem, companheiro. Não tem bronca, não. Tudo bem, mesmo ― replicou o aparador de grama, sorrindo para Harold com mil e uma piadas de caixeiro-viajante no olhar. ― Quanto mais alta, melhor. Solo saudável, é o que você tem aqui, por Circe. É o que sempre costumo dizer.

Por Circe?

O homem que aparava gramados inclinou a cabeça de lado para escutar melhor o rádio.

Yastrzemski acabava de perder a jogada.

― Torce pelo Red Sox. Sou torcedor dos Yankees.

Voltou ao interior da casa com seu andar pesado, dirigindo-se ao alpendre da frente.

Harold observou-o com amargura.

Tomou a sentar-se e olhou acusadoramente por um momento para a poça de cerveja embaixo da mesa, com a lata virada no meio. Pensou em pegar um pano de chão na cozinha, mas decidiu deixar como estava.

Tudo bem. Não tem bronca

Abriu o jornal na seção financeira e estudou judiciosamente os preços de fechamento do leilão da Bolsa de Valores. Como bom republicano, considerava os executivos do mercado de ações de Wall Street, que manipulavam aqueles números publicados pelo jornal, verdadeiros semideuses...

(Por Circe? ? )

... e desejava freqüentemente ser capaz de entender melhor a Palavra, não como fora entregue no alto da montanha, gravada em tábuas de pedra, mas em abreviaturas enigmáticas como on, op, pp, pn, 1,25 ― Certa vez, adquirira cautelosamente três ações de uma companhia chamada Midwest Bisonburgers Inc., que falira em 1968. Ele perdera todo o seu investimento de setenta e cinco dólares. Agora, ao que entendia, bisonburgers eram realmente a sensação que estava por chegar. A onda do futuro.

Discutira o assunto muitas vezes com Sonny, o barman do Aquário do Peixe Dourado.

Sonny dissera que o problema de Harold fora estar cinco anos avançado e que ele deveria...

Um repentino rugido ensurdecedor despertou-o do novo cochilo em que ele começava a mergulhar.

Harold levantou-se de um salto, derrubando a cadeira e olhando desvairadamente em volta de si.

― Isso é um cortador de grama? ― perguntou Harold Parkette às paredes da cozinha. ― Meu Deus, isso é um cortador de grama?

Atravessou a casa correndo e, com os olhos esbugalhados, espiou pela porta da frente.

Nada lá fora, exceto um amassado furgão verde com o letreiro Serviço de Jardinagem Pastoral Ltda. pintado na parte lateral. O rugido ensurdecedor vinha dos fundos, agora.

Harold tornou a atravessar a casa correndo, chegou à varanda dos fundos e estacou, petrificado.

Era obsceno.

O velho aparador de grama vermelho movido a motor, que o homem trouxera no furgão, estava funcionando sozinho. Ninguém o empurrava; na verdade, não havia ninguém num raio de um metro e meio dele. Corria febrilmente, rasgando a grama infeliz do gramado dos fundos de Harold Parkette como um vingador demônio vermelho saído diretamente do inferno. Gritava, roncava e vomitava fumaça azul oleosa numa espécie de violenta loucura mecânica que deixou Harold doente de terror. O cheiro desagradável. da grama cortada pairava no ar como o odor de vinho azedado.

Mas a verdadeira obscenidade era o homem do cortador de grama.

O homem do cortador de grama despira as roupas ― totalmente. Elas estavam cuidadosamente dobradas no bebedouro de pássaros vazio que existia no centro do gramado dos fundos. Nu e manchado de grama, o homem andava de quatro a um metro e meio do cortador de grama, comendo a grama recém-cortada. Baba verde escorria-lhe pelo peito e pingava da barriga balofa. E cada vez que o cortador fazia uma curva em ângulo reto, o homem ficava em pé e dava um estranho pulinho, antes de prostrar-se de quatro outra vez.

― Pare! ― gritou Harold Parkette. ― Pare com isso!

Mas o homem do cortador de grama não lhe deu atenção e seu ensurdecedor parente vermelho não diminuiu a velocidade. Na verdade, pareceu aumentá-la. Sua grade de aço niquelado dava a impressão de sorrir suavemente para Harold ao passar por este.

Então, Harold avistou a marmota. Devia estar escondida em aturdido pavor logo à frente do cortador de grama, na faixa que ia ser ceifada em seguida. De um salto, correu pela faixa de grama já cortada, um animalzinho pardo aterrorizado fugindo em direção à segurança da varanda.

O cortador de grama fez uma curva.

Rugindo e cuspindo, passou por cima da marmota e cuspiu em seu rastro pedaços de couro peludo e entranhas sangrentas que fizeram Harold lembrar-se do gato dos Smith.

Depois de destruir a marmota, o cortador de grama voltou ao trabalho principal.

O homem do cortador de grama engatinhava velozmente, comendo grama cortada.

Harold ficou paralisado de terror, esquecendo-se completamente dos títulos, ações e bisonburgers Podia até mesmo ver aquela barriga balofa dilatar-se. O homem do cortador de grama desviou-se e comeu os restos da marmota.

Foi então que Harold Parkette empurrou a porta de tela e vomitou no canteiro de zínias.

O mundo ficou cinzento e, de repente, ele se deu conta de que estava desmaiando, de que tinha desmaiado. Caiu de costas na varanda e fechou os olhos...

Alguém o sacudia. Era Carla. Ele não lavara a louça nem esvaziara o lixo, mas não importava, embora Carla fosse ficar furiosa. Enquanto ela o acordava, arrancando-o do horrível pesadelo e trazendo-o de volta ao mundo normal, à normal Carla com sua cinta Playtex e cara dentuça...

Dentuça, sim. Mas não a dentuça de Carla. Carla tinha dentes de aparência fraca, uma dentuça de chimpanzé. Mas aqueles dentes eram... Cabeludos.

Naquela dentuça cresciam pêlos verdes. Quase parecia... Grama?

― Oh, meu Deus ― disse Harold.

― Você desmaiou, companheiro. Certo, há?

O homem do cortador de grama estava debruçado sobre Harold, sorrindo com os dentes peludos. Os lábios e queixo também eram peludos. Tudo era peludo. E verde. O quintal fedia a grama, gás, e demasiado silêncio.

Harold sentou-se bruscamente e olhou para o cortador de grama parado. Toda a grama fora perfeitamente aparada. E Harold notou, com uma sensação de náusea, que não haveria necessidade de passar o ancinho para remover a grama cortada. Se o homem do cortador de grama deixara escapar uma só folha de grama cortada, Harold não conseguiu localizá-la. Olhou de esguelha para o homem do cortador de grama e fez uma careta. O sujeito ainda estava nu, ainda gordo, ainda aterrorizador. Filetes de baba verde escorriam-lhe dos cantos da boca.

― O que é isso? ― indagou Harold, suplicante.

O homem gesticulou com ar benigno para o gramado.

― Isso? Bem, é um novo método que o patrão está experimentando. Dá ótimo resultado.

Ótimo, mesmo, companheiro. Matamos dois coelhos com uma só cajadada.

Continuamos a avançar para o estágio final e ganhamos dinheiro para sustentar totalmente nossas outras atividades.

Entende? Naturalmente, de vez em quando topamos com algum freguês que não compreende ― existem pessoas que não têm o mínimo respeito pela eficiência ―, mas o patrão sempre concorda com um sacrifício. Serve para manter as engrenagens lubrificadas, se você me entende.

Harold permaneceu calado. Uma palavra lhe ecoava no cérebro, a palavra "sacrifício".

Mentalmente, ele viu os restos da marmota serem cuspidos pelo velho cortador de grama vermelho.

Levantou-se vagarosamente, como um velho atacado de artrite.

― Naturalmente ― disse ele, só conseguindo lembrar-se de uma frase de um dos discos de rock rural de Alícia: ― Deus regou a grama com sangue.

O homem do cortador de grama deu uma palmada na coxa rosada como uma maçã no verão.

― Essa é muito boa, companheiro. É ótima, no duro. Vejo que morou mesmo no assunto.

Posso anotar isso quando voltar ao escritório? Talvez seja até promovido.

― Claro ― replicou Harold, recuando em direção à porta dos fundos e lutando para manter o sorriso que se apagava. ― Vá em frente e termine. Acho que vou tirar um cochilo...

― Certo ― disse o homem do cortador de grama, erguendo-se pesadamente.

Harold notou a separação desusadamente profunda entre o dedão e o segundo dedo dos pés do homem, quase como se fosse. um casco fendido como o de um boi.

― No princípio, é um tanto chocante ― disse o homem do cortador de grama. ― Na verdade, você acabará se acostumando.

Observou atentamente a figura corpulenta de Harold.

― Talvez até mesmo deseje experimentar. O patrão está sempre procurando novos talentos.

― O patrão ― repetiu Harold com voz sumida.

O homem do cortador de grama parou no último degrau e olhou tolerantemente para Harold Parkette.

― Bem, ora essa, companheiro. Achei que você tinha adivinhado... Deus abençoe a grama e tudo o mais.

Harold sacudiu cautelosamente a cabeça e o homem do cortador de grama riu.

― Pan. O patrão é Pan.

Deu um passinho saltitante na grama recém-cortada e o cortador de grama voltou a funcionar com estrondo, começando a avançar ao redor da casa.

― Os vizinhos... ― começou Harold.

Mas o homem do cortador de grama simplesmente acenou com ar jovial e desapareceu.

Lá na frente, o cortador de grama roncava e zumbia. Harold Parkette recusou-se a olhar, como se a recusa pudesse negar o grotesco espetáculo que os Castonmeyer e os Smith ― ambos malditos democratas ― provavelmente presenciavam com olhares horrorizados, mas, sem dúvida, com aquela expressão de "eu não lhe disse? "

Em lugar de olhar, Harold foi ao telefone e discou para a central de polícia, cujo número estava no decalque de telefones de emergência colado ao aparelho.

― Sargento Hall ― disse a voz na outra ponta da linha.

Harold enfiou o dedo no ouvido desocupado e disse:

― Meu nome é Harold Parkette. O endereço é East Endicott Street, 1421. Gostaria de dar queixa...

De quê? De que ele gostaria de dar queixa? De um homem que violentava e assassinava seu gramado, dizendo trabalhar para um sujeito chamado Pan, e tem pés como cascos bifurcados?

― Sim, Sr. Parkette?

Harold teve uma repentina inspiração.

― Gostaria de apresentar queixa de um caso de atentado ao pudor.

― Atentado ao pudor ― repetiu o Sargento Hall.

― Sim. Tem um homem aparando meu gramado. Ele está... bem... em pêlo.

― Quer dizer que ele está nu? ― indagou o Sargento Hall, polida mente incrédulo.

― Nu! ― confirmou Harold, agarrando-se desesperadamente aos restos de sua sanidade mental. ― Nu. Despido. De bunda de fora. No meu jardim da frente. Agora, o senhor quer mandar alguém aqui?

― O endereço é West Endicott, 1.421? ― perguntou o Sargento Hall, ligeiramente divertido.

― East Endicott! ― berrou Harold. ― Pelo amor de Deus...

― E o senhor diz decididamente que ele está nu? O senhor pode ver seus... bem... órgãos genitais e assim por diante?

Harold tentou falar mas só conseguiu emitir um som engasgado. O barulho do cortador de grama enlouquecido parecia aumentar cada vez mais, abafando todo o resto do universo. Harold sentiu vômito na garganta.

― Pode falar mais alto? ― pediu o Sargento Hall. ― Há muito barulho na sua linha...

A porta da frente se escancarou.

Harold viu o parente mecânico do homem que aparava grama avançar para o interior da sala. Atrás dele, vinha o próprio homem que aparava grama, ainda completamente despido. Com algo que se aproximava da verdadeira loucura, Harold viu que os cabelos púbicos do homem eram de grama verde e viçosa. O sujeito girava o boné de beisebol na ponta de um dedo.

― Isso foi um erro, companheiro ― disse o homem do cortador de grama em tom de censura. ― Você devia ter ficado com "Deus abençoe a grama".

― Alô? Alô, Sr. Parkette...

O telefone caiu dos dedos inertes de Harold enquanto o cortador de grama avançava para ele, ceifando o novo tapete índio de Carla e cuspindo pedaços pardos de fibra.

Harold fitou-o como um pássaro hipnotizado por uma cobra, até que ele chegou à mesinha de centro. Quando o cortador de grama jogou a mesinha para um lado, destroçando-lhe um pé em serragem e lascas de madeira, Harold pulou por cima das costas da poltrona e começou a recuar para a cozinha, segurando a poltrona como um escudo diante de si.

― Isso não vai adiantar nada, companheiro ― disse bondosamente o homem do cortador de grama. ― Só vai aumentar a sujeira. Agora, se você me mostrar onde sua mulher guarda a faca de cozinha mais afiada, poderemos acabar logo com esse negócio de sacrifício, sem dor ou sujeira... creio que o bebedouro de passarinhos serviria... e depois...

Harold jogou a poltrona no cortador de grama, que começara ladinamente a flanqueá-lo enquanto o homem lhe atraía a atenção. O cortador de grama rugiu, contornando a poltrona e lançando fumaça pelo cano de descarga. E, quando Harold abriu a porta de tela da varanda dos fundos e pulou os degraus, ouviu ― cheirou, sentiu ― o cortador de grama nos calcanhares.

O cortador de grama rugiu e desceu os degraus como um esquiador descendo a rampa para um salto. Harold correu pelo recém-aparado gramado dos fundos, mas houvera cervejas demais, cochilos demais à tarde. Sentiu a aproximação do cortador de grama, que lhe chegava aos calcanhares. Então, olhou para trás e tropeçou nos próprios pés.

A última coisa que Harold Parkette viu foi a sorridente grade niquelada do cortador de grama que avançava, balançando-se para trás a fim de exibir as lâminas verdes. E, acima da máquina, a cara gorda do homem do cortador de grama, sacudindo a cabeça em bem-humorada censura.

― Que diabo de coisa ― disse o Tenente Goodwin quando os peritos acabaram de tirar a última fotografia.

Meneou a cabeça para os dois homens de jalecos brancos, que trouxeram a maca através do gramado.

― Ele deu queixa de um homem nu neste gramado, há menos de duas horas.

― É mesmo? ― replicou o Guarda Cooley.

― É sim. Um dos vizinhos também telefonou. Um cara chamado Castonmeyer. Julgou que fosse o próprio Parkette. Talvez fosse, Cooley. Talvez fosse.

― Senhor?

― Enlouquecido pelo calor ― disse gravemente o Tenente Goodwin, batendo com o dedo na têmpora. ― Esquizo-foda-frenia.

― Sim, senhor ― disse respeitosamente o Guarda Cooley.

― Onde está o resto dele? ― quis saber um dos homens de jaleco branco.

― No bebedouro de pássaros ― disse Goodwin, olhando sombriamente para o céu.

― O senhor disse bebedouro de pássaros? ― indagou o jaleco branco.

― Claro que disse ― confirmou o Tenente Goodwin.

O Guarda Cooley olhou para o bebedouro de pássaros e, de repente, perdeu todo o bronzeado da pele.

― Maníaco sexual ― disse o Tenente Goodwin. ― Deve ter sido.

― Impressões? ― perguntou Cooley com voz engasgada.

― Seria melhor você perguntar por pegadas ― replicou Goodwin, apontando para a grama recém-aparada.

O Guarda Cooley emitiu um som estrangulado na garganta.

O Tenente Goodwin enfiou as mãos nos bolsos e balançou-se nos calcanhares.

― O mundo está cheio de malucos ― disse em tom solene. ― Nunca se esqueça disso, Cooley. Esquizofrênicos. Os rapazes da perícia dizem que alguém perseguiu Parkette através de sua própria sala de visitas com um cortador de grama. Pode-se imaginar uma coisa dessas?

― Não, senhor.

Goodwin observou o gramado meticulosamente aparado de Harold Parkette.

― Bom, como dizem por aí, um sueco de cabelos pretos é certamente um nórdico de cor diferente.

Goodwin caminhou ao redor da casa e Cooley o seguiu. Atrás deles, o cheiro de grama recém-cortada pairava agradavelmente no ar.
Retirado do Livro Sombras da Noite, de Stephen King.

Fonte: Creepy World

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