20/05/2015

O assassinato de Brandon Teena: A história real do filme "Boys Don't Cry"


Saudações galera atormentada. Hoje voltamos a contar com uma dica da nossa amiga Maria Reis (@bicurious_). A Maria volta a nos sugerir uma história de um crime que causou grande impacto na sociedade norte americana, principalmente por causa dos elementos cruéis e relacionados a preconceito que circundam a morte de Brandon Teena (Teena Brandon). A história desse crime foi retratada no cinema no longa “Meninos Não Choram”.

Brandon Teena nasceu em Lincoln, Nebraska, em 12 de dezembro de 1972 com o nome de Teena Brandon Renae. Apesar de Teena ter nascido mulher, ele identificava-se com o sexo masculino desde muito pequeno, e passou boa parte da vida vivendo como homem, adotando assim o nome Brandon Teena - uma simples inversão do seu nome real. Como ele se identificava com o sexo masculino e assumiu essa condição durante sua vida, vou me referir a Brandon Teena como “ele” durante o texto.

Início da vida

Brandon Teena era o filho mais novo de Patrick e JoAnn. Patrick faleceu em um acidente de carro quando Brandon tinha apenas oito meses de idade. Brandon e sua irmã Tammy viveram em Lincoln com sua avó materna até que Brandon tivesse completado três anos de idade e Tammy seis. A partir desse momento Brandon e Tammy foram viver com sua mãe. JoAnn trabalhava como balconista em uma loja feminina de varejo para sustentar a família.


Brandon e Tammy sofreram, durante a infância, por vários anos com abusos sexuais cometidos por um tio, fato esse que só veio a tona em 1991, quando JoAnn e Brandon foi procurar aconselhamento a respeito.

JoAnn casou-se em 1975, porém a união acabou chegando ao fim em 1980 devido aos problemas de alcoolismo do marido.

Desde a infância Brandon se comportava tipicamente como menino, e isso acabou mais evidente na adolescência. A partir desse período ele passou a identifica-se como homem, mesmo que no colégio continuasse sendo tratado como mulher. Sua mãe rejeitou sua identidade masculina, e continuava referindo-se a Brandon como filha.

Teena e sua irmã frequentaram a escola Primária de Santa Maria e o colegial na escola Pio X, em Lincoln. Por seu comportamento Brandon foi amplamente rejeitado na escola. Durante o segundo ano Brandon rejeitou o cristianismo e protestou a um padre da escola Pio X sobre as visões cristãs a respeito de abstinência e homossexualismo. Ele também começou a rebelar-se contra a escola, pois essa exigia o uso de uniformes escolares. Brandon queria vestir-se como os meninos se vestiam, ao invés de usar o uniforme feminino.


Ao completar 18 anos de idade Brandon Teena acabou alistando-se no exército dos EUA, porém seu pedido não foi aceito, pois ao fazer a sua inscrição ele preencheu seus papeis como sendo um jovem do sexo masculino, algo que seus documentos de identificação não confirmava.

Nessa época Brandon já se vestia como homem, adotando um visual com roupas folgadas a fim de ocultar seus seios. Ele já havia tido alguns encontros com algumas garotas nesse período. Perto da sua formatura do ensino médio seu comportamento passou a ser bastante extrovertido, o que deu a Brandon o status de “Palhaço da Turma”, porém ele seria expulso do colégio Pio X em junho de 1991, há três dias da formatura do ensino médio.

A tração por mulheres fez com que Brandon fosse chamada de lésbica por muitas pessoas, fato que ele recusava a aceita. Segundo ele lesbianismo não era um termo que pudesse ser usado para definir sua relação com outras meninas, pois Brandon sempre se considerou como sendo um homem.

Brandon estava envolvido com uma jovem de 14 anos de idade chamada Heather. Após a expulsão do colégio, Brandon começou a trabalhar em um posto de gasolina, ocupando a vaga de atendente. Ele almejava comprar um trailer para ele e sua namorada. Sua mãe desaprovava os comportamentos de Brandon, com medo de que esse comportamento fosse influenciar de alguma forma Tammy.

Em janeiro de 1992 Brandon foi submetido a uma avaliação psiquiátrica, que concluiu que Brandon sofria de: “uma severa crise de identidade sexual”. Mais tarde ele foi levado ao Lancaster Crisis Center, para exames com a finalidade de verificar se Brandon possuía características suicidas. Durante sua estada nesse hospital Brandon revelou que sua mãe havia sido estuprada por um parente do sexo masculino quando criança. Após três dias Brandon foi liberado do hospital, porém ele teria que participar de sessões de terapia com a mãe.

Em 1993, depois de alguns problemas legais, Brandon acabou mudando-se para City Falls, também em Nebraska. Em City Falls Brandon identificou-se apenas como sendo homem. Ele fez amizade facilmente com moradores locais.

Pouco tempo depois Brandon mudou-se para a casa de Lisa Lambert, e iniciou um romance com Lana Tisdel de 19 anos de idade. Brandon começou a associar-se aos ex condenados John L. Lotter e Marvin Thomas “Tom” Nissen.

Brandon e Lana
Lisa

Prisão e revelação da sexualidade de Brandon

No dia 19 de dezembro de 1993, Brandon acabou preso sob a acusação de forjar cheques. Tisdel pagou sua fiança e acabou descobrindo que Brandon era na verdade mulher, pois ele estava preso na seção feminina da prisão. Quando questionado a esse respeito Brandon afirmou a Lana que de fato havia nascido mulher, e que pretendia realizar uma cirurgia para a mudança de sexo. Lana compreendeu Brandon e manteve o namoro com ele.


Morte e abuso sexual

Durante a noite de natal daquele mesmo ano, Tom Nissen e John Lotter agarrara Brandon e o obrigaram a retirar suas calças. Eles haviam descoberto que Brandon era mulher e queriam provar isso para Lana, que por medo da reação da dupla não mencionou que já sabia de toda a verdade. Depois Lotter e Nissem agrediram Brandon e o obrigaram a entrar em um automóvel. Eles se dirigiram para um frigorífico em Richardson County, onde voltara a agredir Brandon e o estupraram.

Depois eles se dirigiram para a casa de Nissen, de onde Brandon conseguiu escapar, saindo pela janela do banheiro. Brandon acabou procurando abrigo na casa de Lana Tisdel, que convenceu Brandon a registrar uma ocorrência policial, embora Nissem e Lotter tivessem ameaçado Brandon de que se ele fosse a polícia eles iriam “silenciá-lo permanentemente”.

Após realizar o boletim de ocorrência Brandon foi levado a sala de emergência do hospital local, onde foram colhidas provas do estupro. Tais provas acabariam sendo perdidas. Inicialmente o xerife Charles B, Laux se mostrou interessado em ajudar Brandon, colhendo o depoimento e dados a respeito da agressão e das ameaças, mas com o passar do tempo as perguntas do oficial acabaram se baseando apenas no aspecto do gênero adotado por Brandon, fazendo perguntas rudes e desnecessárias, a tal ponto que Brandon se sentiu intimidado recusando-se a continuar respondendo aos questionamentos.

Nissen e Lotter acabaram sabendo do relatório e passaram a procurar por Brandon. Três dias após o ataque a dupla foi interrogada pela polícia. O xerife optou por deixá-los livres, mesmo sabendo das ameaças que a dupla havia feito a Brandon, pois considerar que não possuía provas suficientes para prendê-los.

Nissen e Lotter invadiram a casa de Lisa Lambert, e a encontraram na cama. A dupla exigiu que Lisa contasse onde Brandon Teena estava se escondendo, mas Lisa recusou-se a responder. Nissen então conseguiu localizar Brandon embaixo de uma cama.

Os criminosos perguntaram se mais alguém estava na casa, e Lisa respondeu que Phillip Devine estava no local. A dupla de criminosos então assassinou a tiros Brandon, Phillip e Lisa, na frente dos filhos de Lisa.


Brandon 21 anos, Phillip 19 anos e Lisa 24 anos.
Brandon Teena está enterrado no Cemitérios Memorial de Lincoln, em Lincoln, Nebraska. Em sua lápide está escrito seu nome de nascimento e o epitáfio menciona: filha, irmã e amiga.


Prisão dos Assassinos

Nissen acabou acusando Lotter de ter sido o autor dos crimes, em troca de ter sua sentença reduzida. Durante o tribunal ele chegou a afirmar que mesmo depois dos disparos ele notou que Brandon estava se mexendo, e que pegou uma faca, com a qual ele esfaqueou a vítima para garantir que a mesma estivesse morta. Segundo ele essa foi a sua participação no crime.


Nissen acabou sentenciado a prisão perpétua.

Lotter passou a negar as alegações de Nissen, e tentou desacreditar a versão apresentada pelo seu colega de crime. O júri condenou Lotter a pena de morte pelos seus crimes.

Tanto Lotter como Nissen apelaram da decisão. Em 2007 Nissen desmentiu seu depoimento inicial e afirmou que havia sido o único responsável pelos assassinatos. Segundo essa nova alegação de Nissen, Lotter não havia cometido os crimes.

Em 2009, o apelo de Lotter, baseado no novo testemunho de Nissen, alegando inocência foi rejeitado pelo supremo tribunal de Nebraska. O tribunal afirmou que tanto Nissen quanto Lotter estiveram envolvidos nos crimes, e que a identificação do atirador é irrelevante, pois os dois contribuíram de maneira igual para o trágico resultado das suas ações.

Em 2011 um grupo de juízes da 8ª vara de apelações da justiça dos EUA, rejeitou o apelo de John Lotter.

O processo contra o xereife Laux

JoAnn Brandon, mãe de Brandon Teena, moveu um processo contra o xerife Laux por não ter evitado a morte de Brandon. Segundo suas alegações, a inoperância do xerife contribuiu de forma indireta para a morte de Brandon. Ela ganhou o caso, recebendo uma indenização de US$ 80000,00.

O caso de Brandon Teena no cinema

A história de Brandon Teena inspirou o cinema, o que resultou em um documentário e um filme.

Em 1998 foi lançado o documentário “Brandon Teena Story “. O documentário foi dirigido por: Susan Muska, Gréta Olafsdóttir.


Já em 1999 foi lançado o filme “Boys don’t Cry”, protagonizado por Hilary Swank. Hilary recebeu o Oscar de melhor atrás em 2000 pelo papel.



Informações sobre os abusos na infância

Na biografia escrita por Aphrodite Jones, “All She Wanted” (“Tudo O Que Ela Queria”), o primeiro relato de abuso sexual aparece na entrevista com Sara Gapp, melhor amiga de Brandon quando Brandon tinha doze anos.”Ela [Brandon] me contou que um de seus parentes estava fazendo algo com ela que ela não gostava. Ela apenas meio que disse que, você sabe, ele colocava aquilo para fora e brincava um pouco com aquilo… e, ocasionalmente, ela disse, ele fazia ela tocar ele e brincava com ela e dizia ‘Você gosta disso. Você sabe que isso é bom… Você sabe que você não quer que eu pare.'” (Jones, 43) De acordo com Sara, “Naquele momento, ela não queria que ninguém soubesse o que aconteceu. Ela não queria o cara com raiva dela… Ela estava envergonhada. Não importava o que ele fez com ela, ela continuava gostando dele.” (Jones, 43)

O terapeuta de Brandon confirmou mais tarde a história de abuso, adicionando que, de acordo com ela, as sessões de abuso duravam horas e o molestamento aconteceu por muitos anos, entre a infância e a adolescência. Em uma sessão de aconselhamento, Brandon falou sobre o assunto em um confronto com sua mãe JoAnn, mas pediu para que ela não confrontasse o agressor, que pode ter sido um dos parentes de JoAnn. A irmã de Brandon, Tammy, também uma vítima, confirmou a descrição de Brandon. É possível que esse abuso tenha sido um fator decisivo para Brandon deixar sua casa ao dezesseis anos, arrumar um trabalho e ir morar com sua então namorada, Traci Beels, uma colega de escola mais velha.

Respostas da Vítima ao Incesto

Em seu livro “Victimized Daughters: Incest and the Development of the Female Self” (“Filhas Vitimizadas: Incesto e o Desenvolvimento do Ser Feminino”), Janet Liebman Jacobs diz que o incesto representa “a mais extrema forma de objetificação sexual da criança fêmea na cultura patriarcal” (Jacobs, 11). Ela dá argumentos excelentes para demonstrar que o incesto tem um grande impacto no desenvolvimento da personalidade feminina, incluindo identidade de gênero.

O livro de Jacobs destaca importantes questões de desenvolvimento que influenciam a formação da personalidade de filhas abusadas sexualmente, e entre essas é a identificação com o autor. Anna Freud, filha de Sigmund Freud e fundadora da psicoanálise infantil, discorre sobre esse processo:

A criança introjeta alguma característica de um objeto de ansiedade e então assimila uma experiência de ansiedade pela qual ele [ela] acabou de passar… Ao personificar o agressor, assumindo seus atributos ou imitando sua agressão, a criança transforma a si mesmo [mesma] da pessoa ameaçada para a pessoa que faz a ameaça (Freud, 121). Afastando-se de sua mãe, quem ela entende como uma desonesta traidora-de-suas-iguais, a filha vitimizada se espelha no autor masculino, que, por ser seu abusador, é entendido como poderoso, e quem, por ser homem, ainda tem o potencial para idealização objetiva. “Feminino”, para a filha, se tornou o gênero de vítimas e traidoras. Segundo a pesquisadora de trauma Judith Herman, “em suas tentativas desesperadas de manter a fé em seus pais, a vítima desenvolve imagens altamente idealizadas de pelo menos um dos pais… Mais comumente, a criança idealiza o abusivo e desloca toda sua raiva sobre o inofensivo.” (Herman, 106). Descrevendo sua pesquisa com sobreviventes de incesto pai-filha, Herman nota que “com a exceção daquelas que se tornaram feministas conscientes, a maioria das vítimas de incesto pareciam considerar todas as mulheres, incluindo elas mesmas, desprezíveis” (Herman, “Father-Daughter Incest” — “Incesto Pai-Filha” — 103).

Rejeitando a mãe e a própria identidade feminina, a filha vitimizada começa a imitar o agressor. E. Sue Blume, autora de “Secret Survivors” (“Sobreviventes Secretas”), descreve como a filha se reinventa através da identificação com o autor.

…vítimas crianças frequentemente se auto-recriam, desenvolvendo alter egos que oferecem uma alternativa positiva para elas próprias. Mais comumente, é uma persona masculina: as pacientes mulheres e sobreviventes podem forjar personalidades masculinas alternativas ou se unir a um companheiro que represente uma fantasia masculina. Isso é simples de entender: como uma vítima, e uma mulher, ela associa seu estado vulnerável com estar sem defesa; homens, no entanto, são vistos como fisicamente mais fortes e como um alvo difícil para a vitimização. (Blume, 85)

Agradecimentos a amiga Maria Reis (@bicurious_) pela dica dessa postagem.


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9 Comentários
Comentários
9 comentários:
  1. pois é, voce se referiu como ele no texto todo, mas a familia nao deu bola para isso.

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  2. O texto ia muito bem, até realizar o desserviço de adicionar um questionamento psicanalítico ultrapassado, que tenta até mesmo justificar as identidades de gênero. Sou psicólogo e discordo totalmente desta tese. A pessoa já nasce com sua identidade de gênero, independente de sua formação biológica (macho ou fêmea).

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  3. Você pode até escrever um texto justificando a sua opinião a respeito do assunto e enviar para o email noitesinistra@gmail.com que seria um prazer enorme publicar ele...assim dariamos continuidade a esse assunto....

    Quando pesquisei a respeito desse assunto esse foi o unico argumento relacionado a ele que encontrei...seria bom ter mais argumentos....

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  4. Adorei o seu texto e voce mereceu o meu respeito ao trata-lo por ele e nao por ela. Ja estive a ler varios textos de pessoas que escrevem sobre ele e tratam sempre por ela, nao respeitando o seu caso.
    nota 10

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  5. Não é homossexualismo e sim homossexualidade

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  6. O texto está certo, sim. Podem pesquisar pessoalmente. A maioria das pessoas que hoje são homossexuais foram abusadas na infância ou na adolescência. Geralmente, quando se é criado sem a figura do pai, a criança, quando cresce passa a procurar nas pessoas aquilo que ele sentia falta na figura paterna. No caso das meninas, é importante que o pai trate bem a mãe da criança para que ela possa ver como é bom ser mulher, é importante que ele a valorize sua feminilidade. A pessoa não nasce gay, a sexualidade é interrompida apenas por abusos ou por falta de uma família estruturada.

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  7. Tirando a parte da psicanálise é um ótimo texto. Se eu fosse tirava essa parte que é uma teoria. Desnecessário.

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  8. Maycow8 reveja seus conceitos eu conheço vários homossexuais e eles não foram abusados na infância .se liga

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