13/01/2014

Conto do Leitor: Cicatrizes


Olá amigos e amigas. Hoje volto a compartilhar com vocês um  conto escrito e enviado por uma leitora do blog. A benfeitora da vez é a amiga Ana Marta Reis. A amiga Ana escreveu esse texto para a filha dela apresentá-lo no colégio, na época que houve o Referendo do Desarmamento. Compartilho agora o texto da amiga Ana...aproveitem...

Cicatrizes

Nasci em berço de ouro, meu pai era um Coronel do cacau conhecido, respeitado e temido por todos. Vivi feliz e cercado por luxos até os catorze anos de idade. De repente, numa mudança de governo, vi todo o nosso império desmoronar, meu pai perdeu tudo, ficamos sem nada. Conheci as escolas públicas, o transporte coletivo, a fila do SUS e a vida dura das famílias pobres brasileiras que eu via esporadicamente na televisão. Meu pai deixou de ser empregador e se tornou escravo de problemas. Começamos a definhar nas finanças e na moral. Sofremos humilhações, cobranças, agressões de diversos tipos, inclusive domésticas. Os amigos acabaram as dívidas se acumulavam as farras de final de semana na piscina tornaram se reuniões para dar um norte a aquela situação. A minha mãe na sua fraqueza vivia sedada de calmantes para fugir das criticas das amigas e eu, eu via tudo aquilo com uma grande tristeza. A casa da cidade foi leiloada, as fazendas de cacau confiscadas para pagar dividas de bancos, fornecedores e funcionários, alguns deles com gerações inteiras de servidão. O meu pai se parecia com um zumbi, não comia, não conversava conosco, não sorria e não conseguia reagir a todo aquele acontecimento. Num dia cinzento e frio, vi o meu pai sair da sala ampla e arejada, o seu canto favorito, seus movimentos eram mecânicos, andava devagar em direção a biblioteca da casa, seu olhar era parado e frio, sua cabeça estava curvada. 

Tentei falar com ele atravessando em sua frente, mas, ele nem sequer me olhou. Resolvi deixá-lo em paz e me afastei amedrontado. Algum tempo depois ouvimos um forte estrondo vindo da direção tomada por ele alguns minutos antes. Corri na direção do barulho e ali encontrei o meu pai, ele que eu tanto amava, estendido no chão com os olhos arregalados e os miolos espalhados pelo tapete de fina linhagem. Seu rosto estava desfigurado, seus braços estavam abertos como se pedisse um ultimo abraço. Na sua mão destra, um revolver calibre 38 de fabricação nacional a única e amarga saída para o meu pai naquela manhã fria de 23 de outubro de 1990. Saí gritando daquele lugar, atravessei correndo o jardim e o portão principal, alguma coisa me deteve. Acordei dias depois, numa cama de hospital, ao meu lado havia dois médicos e minha irmã mais velha, eles se entreolharam desconfiados como se me escondessem alguma coisa. Tentei mexer as pernas, não consegui a minha irmã me abraçou chorando, seus choros confirmaram as minhas suspeitas e, logo depois eu soube que o algo que me deteve foi um caminhão.

Já se passaram 15 anos, e até hoje eu acordo no meio da noite gritando com as lembranças daquela manhã. Minha mãe corre me abraça me acalmando. Mas, é tudo muito real, e eu revejo sempre aquela cena nos meus sonhos. A nossa vida hoje, deu uma guinada, meus irmãos cresceram,estudaram, prosperaram e hoje temos casas, fazendas, carros e muito mais dinheiro no banco do que naquele tempo. Porém, vivo preso a uma cadeira de rodas, tenho duas enfermeiras e uma fisioterapeuta que cuidam de mim com acompanhamento de um médico particular, tenho todo conforto e carinho que um ser humano possa almejar, mas, a minha maior riqueza eu perdi naqueles 23 de outubro de 1990, por causa de um revólver calibre 38 estimado pelo meu pai.

Autora: Ana Marta Reis


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