18/11/2014

A lenda da Lagoa da Corneta na Vila Carmelo - RS


Saudações galera atormentada. Hoje eu volto a publicar uma matéria da série "Histórias e Lendas Brasileiras". A lenda de hoje fala de um suposto fantasmas de um soldado da revolução Farroupilha, que continua vagando pela região onde ele perdeu a vida, na Vila Carmelo.

Faz 169 anos que os canhões silenciaram, pondo fim à maior guerra de secessão da história do país, mas os ecos da Revolução Farroupilha continuam atiçando o imaginário dos gaúchos. Lugares por onde pisaram tanto farrapos republicanos quanto legalistas defensores do Império do Brasil irradiam algum tipo de vibração, o qual induz as pessoas a se sugestionarem com situações que ultrapassam a fronteira do real.

A lenda da Lagoa da Corneta

Durante as noites sem lua, em que o vento parece trazer remotos lamentos e até o cricrilar dos grilos silencia, moradores do povoado de Carmelo podem ouvir os toques de um clarim implorando para que a tropa não recue diante do inimigo mais poderoso. Quem escuta os sons de "avançar!" garante não sentir medo. Sabe que apenas teve imaginação suficiente para ser bafejado por uma lenda.

Adultos e crianças da Vila Carmelo, no município de Rosário do Sul, conhecem a história do corneteiro que morreu dentro de uma lagoa profunda enquanto combatia as forças do Império do Brasil, há 178 anos. O relato oral foi repassado por gerações, claro que com as variações e as deturpações que podem ocorrer. Habituaram-se a conviver com a assombração — e não a temem.


Tudo começa em 17 de março de 1836, próximo de onde surgiria o município de Rosário do Sul. À frente de 800 farrapos, o coronel José de Almeida Corte Real foi envolvido e desbaratado pelo astuto Bento Manoel Ribeiro. Deveria ter esperado o reforço de Bento Gonçalves, que estava perto, mas aceitou bater-se acreditando numa vantagem de que não dispunha.

A falta de cautela foi desastrosa: o imperial Bento Manoel contou 200 prisioneiros, entre eles Corte Real, e dezenas de mortos, incluindo o soldado do clarim. Parte deles afogou-se na lagoa durante a fuga, ignorava que não dava pé, embora aparentasse — e segue parecendo — ser rasa.


O episódio alterou a vida na região, com desdobramentos que ainda perduram. Situada entre a Vila Carmelo e o Rio Santa Maria, a então Lagoa Funda foi rebatizada de Lagoa da Corneta, em homenagem ao clarim farroupilha. E suas águas plácidas passaram a emitir ecos que continuam surpreendendo.

A lenda está no ar, dentro das casas modestas, nas ruas de chão batido da Carmelo. Quem conversar com os alunos da Escola Passo do Rosário, a única da vilinha, saberá que as narrativas brotam espontaneamente. Bárbara Guedes Nunes, oito anos, conta que já ouviu a corneta soando, quando estava prestes a pegar no sono, tarde da noite.

— Fiquei quietinha na cama, para escutar bem — diz a menina.

Colegas de Bárbara acrescentam mais casos, a maioria envolvendo pais e avós. Como aprendem sobre o combate na Lagoa da Corneta e a Revolução Farroupilha nas aulas de história, acabam misturando fatos com a fábula transmitida pelos mais velhos. Às vezes, os imaginativos se empolgam tanto que precisam ser chamados ao rés do chão da realidade por alguma estudante mais judiciosa. 


Entre os moradores, há mais descrições sobre a estranha audição. Eliane Marisa da Silva, 44 anos, diz que escutou o clarim, mas uma só vez e nunca mais, há uma década. Num primeiro momento, achou que o "ta-ta-ra-ta-tá" viesse do quartel de Rosário do Sul, o 4º Regimento de Carros de Combate (4º RCC), com sede na cidade, a cerca de dois quilômetros de Carmelo. Desfeita a dúvida, assegura que não se apavorou.

— Não deu medo nenhum — lembra Eliane.

Quem vive nos arredores adaptou-se às aparições repentinas do fantasma corneteiro e aos enigmas da lagoa, cuja profundidade seria insondável. Mergulhadores já tentaram alcançar o leito, em vão. Pescadores usaram varas como réguas, também não acharam o fundo.

No verão, a Lagoa da Corneta é o refrigério das crianças, que se banham nas suas margens, sob a supervisão de algum adulto bom nadador. Mãe de cinco filhos, Eliane diz que nunca houve acidentes, sequer sustos. Suspeita-se que o clarim farrapo, nesses momentos, está de vigília para evitar afogamentos.

— Esta lagoa é abençoada — destaca Eliane.

Cemitério farrapo virou adoratório

Os restos mortais do soldado do clarim e dos farroupilhas que tombaram na Lagoa da Corneta, naquele combate travado há 178 anos contra o exército imperial, foram sepultados com a pressa que a guerra impõe à sombra de um caponete — porção de árvores isoladas no campo. Nunca puderam descansar em paz.


Em 1851, ao passar pelo local a caminho da Argentina para enfrentar o ditador Juan Manuel de Rosas, em mais uma campanha de fronteira contra os vizinhos castelhanos, o general João Antônio da Silveira organizou um pequeno cemitério aos que haviam morrido 15 anos antes. Um dos comandantes farroupilhas na revolução finalizada em 1845, João Antônio queria reverenciar as vítimas da Lagoa da Corneta com um jazigo mais sólido.

Não respeitaram os mortos. Por sucessivas gerações, caçadores de relíquias (armas e moedas) violaram o túmulo coletivo. Sem qualquer ponta de receio do fantasma do clarim, profanaram o sepulcro campestre com repetidas escavações.

Os vestígios só não desapareceram porque a Confraria de Resgate Histórico (CRH), de Rosário do Sul, construiu um monumento no lugar, em 2004. O coordenador do grupo, Sidnei da Silva Gomes, 51 anos, lembra que foram encontrados tijolos antigos durante as obras, de formato e composição diferentes dos atuais, que talvez sejam do cemitério farrapo.

Um monumento foi erguido em homenagem aos 150 mortos no dia 17 de março de 1836, entre eles um bravo corneteiro que morreu afogado na Lagoa, também chamada de Lagoa Funda.
— Foi o pouco que sobrou. Foi saqueado ao longo dos anos — lamenta.

Um singelo obelisco sinaliza a área, ao lado do mausoléu, cujo frontispício exibe uma cruz, em memória aos mortos, e uma corneta, para lembrar o clarim farroupilha. Ambos os símbolos estão em posição inclinada, para a direita. Aproveitando a umidade, um caracol fixou a sua concha numa reentrância da cruz, em um equilíbrio precário.

Visitantes percebem que a sepultura se tornou ponto de devoção. Há velas e sebo derretido num altar improvisado. São de mulheres da Vila Carmelo que oram por seus mortos e, talvez, pela alma penada dos desconhecidos farrapos.


Fonte: Zero Hora

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