14/04/2015

Os alinhamentos solares do morro da Galheta


Saudações amigos e amigas. Hoje voltamos a trazer uma postagem que fala de estranhas formações rochosas encontradas no Brasil. O tema de hoje são os megalitos do morro da Galheta em Santa Catarina, um lugar que é chamado por muitos como “o observatório astronômico do passado”. Esse apelido se deve ao fato de que as rochas permitem uma estranha observação do sol no solstício e equinócios. Esse incrível alinhamento, e as estranhas pedras empilhadas, dão ao visitante a impressão de que o local esconde segredos de um povo antigo que habitou o Brasil e continua ignorado pela arqueologia brasileira.

Embora a postagem a seguir faça parte de uma série destinada a mostrar antigas e enigmáticas formações rochosas encontradas no Brasil, o que para muitos e a prova de que o passado brasileiro pode ser muito mais “agitado” do ponto de vista arqueológico e cultural do que a história oficial sugere, a postagem de hoje é a segunda de uma sub série de quatro postagens. Quando a quarta postagem for ao ar, farei as devidas “linkagens” entre os conteúdos, o que permitirá que todos eles sejam abordados com calma e sem precipitações.

As primeiras observações de alinhamentos

Por volta de 1918 Vieira da Rosa fez referências a algumas formações rochosas peculiares no litoral catarinense. Porém 70 anos depois que o então pescador Adnir Ramos percebeu que algumas das formações rochosas e grandes pedras localizadas no Morro da Galheta coincidiam com o nascer do Sol e da Lua em épocas específicas do ano.

É quase unanimidade que toda cultura dita primitiva de alguma forma observou o céu ou fez uso dos movimentos aparentes do Sol, da Lua e das estrelas. Basicamente a observação do movimento anual do Sol servia para um calendário local, relacionando as estações do ano com alterações climáticas ou com o comportamento da natureza ao redor, permitindo as atividades econômicas ou de subsistência de uma comunidade.

Parque Municipal da Galheta

O Parque Municipal da Galheta está situado na porção centro-leste da Ilha de Santa Catarina. Trata-se de um maciço rochoso disposto no sentido NE/SW, que se estende desde a Praia da Barra da Lagoa, ao norte, até a restinga da Praia Mole (sudeste) e Lagoa da Conceição (sudoeste). O limite oeste do maciço do Morro da Galheta é constituído pelo Canal da Barra da Lagoa, uma porção de planície arenosa de sedimentos quaternários e, mais a sudoeste, as margens da Lagoa da Conceição. Em sua vertente leste, o maciço tem sua base constituída basicamente por costões rochosos voltados para o mar aberto, além da Praia da Galheta, que possui aproximadamente 1 km de extensão.


Ao longo de suas vertentes, o Morro da Galheta apresenta basicamente quatro tipos de ecossistemas, de acordo com sua constituição geológica/pedológica e altitude: encostas de solos rasos, onde a cobertura vegetal original é a formação do tipo “floresta ombrófila densa”; solos arenosos em baixas altitudes, cuja cobertura vegetal é constituída por “vegetação de restinga”; praia arenosa de mar aberto (Praia da Galheta), com vegetação de praia e dunas fixas; e costões rochosos, que se estendem desde a desembocadura do Canal da Barra da Lagoa no mar até a Ponta do Caçador (extremidade norte da Praia da Galheta), passando pela Ponta da Galheta (extremo norte do maciço).


O parque é municipal, ou seja, seu gerenciamento é feito pela Prefeitura Municipal de Florianópolis, através da Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis). Dentro da Floram existe o Depuc (Departamento de Unidades de Conservação), que é responsável pelo monitoramento das UC’s e ALP’s (áreas legalmente protegidas) municipais de Florianópolis, dentre elas o parque da Galheta.

Os alinhamentos do Morro da Galheta

A peculiaridade deste sítio reside no fato de estar relacionado principalmente com os equinócios, embora haja alguns alinhamentos solsticiais. Em relação aos equinócios encontramos três pedras com tamanho em torno de 3 metros nomeadas nas Figuras abaixo como A, B e C. A pedra A repousa sobre a pedra B. Já a pedra C encontra-se cerca de 3 metros à leste das primeiras. O observador deve se situar a oeste destas pedras, próximo a uma parede rochosa, de modo que a conjunção das três pedras formem uma minúscula janela onde a linha do horizonte atravessa o seu interior (ver abaixo). Se o observador deslocar-se a sua direita, a janela fecha-se, e se o observador deslocar-se a sua esquerda, a janela se desfaz. Exatamente na direção da janela o Sol nasce por ocasião dos equinócios (20-21 de março ou 21-22 de setembro).

É sabido que o movimento aparente do Sol na linha do horizonte durante a época dos equinócios é maior do que durante os solstícios em virtude da inclinação relativa da eclíptica com o equador celeste. O autor ainda não observou o comportamento do feixe de luz solar sobre a parede rochosa. O único vestígio arqueológico nas proximidades é uma inscrição rupestre descoberta por Adnir Ramos localizada numa das trilhas de acesso (também conhecida por Caminho dos Reis). Durante a pesquisa por parte do autor notou-se a ação de vandalismo no sítio, principalmente derrubada de algumas pedras e restos de fogueira.

Alinhamento de pedras existentes no Morro da Galheta. Foto de A Amorim
Sol nascendo no Equinócio de Outono, 21 de março de 2008. Foto de A. Amorim
Uma das evidências de que os fenômenos devem ser investigados reside na arbitrariedade dos solstícios e equinócios. Embora sejam fenômenos naturais, a determinação das épocas de solstícios e equinócios e sua relação com a duração dos dias e das noites é arbitrária, pois é fruto da interpretação humana. Diversas culturas e tradições encontraram seus meios de determinar tais épocas, formando assim seus calendários, através dessas observações. Estas variações sazonais refletem no ambiente e isso não passa despercebido por nenhuma cultura. Desde a migração de aves, até a aparição de grandes cardumes de peixes, passando pelo amadurecimento de diversos frutos, há vários ciclos ecológicos relacionados com as estações do ano. Portanto se em outros locais do mundo houve grupos que percebiam tais mudanças ambientais e sua relação com os fenômenos celestes, não seria nenhuma anormalidade inferir que as antigas tradições na Ilha de Santa Catarina fizessem o mesmo. Porém até o momento não há resposta afirmativa ou negativa para a seguinte questão:

Os alinhamentos encontrados eram usados por anteriores habitantes da Ilha?


Abrimos um parênteses para comentar sobre as duas antigas tradições que deixaram vestígios arqueológicos na Ilha de Santa Catarina:

Os Sambaqueiros: são também conhecidos como pescadores-caçadores-coletores. Dominavam a técnica da pedra polida a julgar pelos pertences encontrados em seus sambaquis (clique AQUI para conhecer esses antigos monumentos de fúnebres feitos a partir de conchas). Não há evidências de que praticavam a agricultura, dedicando-se à coleta de frutos, caça e pesca. O provável conhecimento astronômico que os sambaquieiros poderiam ter estaria relacionado em saber a época de colher apropriadamente os frutos maduros ou simplesmente se preparar para pescar certos peixes em épocas determinadas. Com a diminuição da duração do dia e proximidade dos dias mais frios o primitivo pescador saberia que se aproxima da época de pescar a tainha, por exemplo. Hoje, com a nossa cultura fortemente influenciada pelo calendário gregoriano, o pescador responderia prontamente que tal época situa-se entre os meses de maio e julho. Mas o pescador primitivo tinha outro tipo de contagem de tempo, um calendário cíclico que alternava entre dias frios e dias quentes.

Leia Mais: Entradas para o mundo subterrâneo em Santa Catarina


Os Itararés: embora também fossem pescadores-caçadores-coletores como os sambaquieiros, os itarerés dominavam a cerâmica para uso utilitário. Sua ocupação não ultrapassa 1140 AP. Estudos publicados em 2002 no livro "The Backbone of History" mostram que os sambaquieiros e os itararés tinham excelente qualidade de vida, a julgar pelas ossadas disponíveis.

Por que tais tradições não usariam ferramentas para o ciclo anual? A resposta a esta pergunta necessita de pesquisa.

Mas e se a pesquisa indicar um resultado negativo? Significa que os sítios encontrados diminuiriam sua importância? Não, necessariamente. Os três sítios são ótimas ferramentas para o ensino da astronomia observacional. Sua aplicação didática para o entendimento da "mecânica" dos solstícios e equinócios é evidente mesmo nos dias de hoje.

O trânsito do disco solar durante o solstício de verão, conforme observado na Pedra do Frade, dura aproximadamente 16 dias centrados na data do solstício. Já o trânsito do disco solar na janela formada pelo alinhamento de pedras no Morro da Galheta não ultrapassa 4 dias em virtude do rápido movimento aparente horizontal do Sol na época dos equinócios. Os sítios arqueoastronômicos também são úteis para:

a) conhecer a diferença de 47 graus de declinação entre os pontos solsticiais de inverno e verão;
b) determinar com relativa precisão os pontos cardeais, em especial o Leste;
c) conhecer propriamente os sítios, as trilhas e inscrições rupestres para preservação.

Contestações céticas

Muitas pessoas, dentre elas alguns acadêmicos tradicionais, encaram o alinhamento descrito acima, como algo que pode ser “fabricado” pelo observador. Para essas pessoas céticas, o tanto que os observadores se inclinam e se movem pode fabricar o alinhamento entre as pedras da Galheta. Segundo essa visão o alinhamento poderia ocorrer em qualquer época do ano, não apenas em equinócios e solstícios, quebrando assim a “magia” do lugar.

Esses grupos ainda alegam que mesmo que haja uma espécie de alinhamento, esse fenômeno seria apenas obra da natureza e do acaso. Os antigos habitantes não teriam nada haver com o assunto.

Mais evidências de alinhamentos

Quem já visitou o local, ou mesmo outros pontos nos arredores afirma que há a clara impressão de que as formações foram fruto da atividade humana, refrutando a hipótese de que a natureza teria criado todas as estruturas de pedra. Há a clara impressão de que as pedras foram “empilhadas” formando as estruturas. Esse tipo de opinião fica bem evidente em alguns outros pontos próximos, como a Pedra do Frade e a Ponta do Gravatá.


Esses outros pontos mencionados acima também mostram alguns alinhamentos com o sol, menos impressionantes que o do morro da Galheta é verdade, mas interessantes a ponto de sugerir que tais alinhamentos não são obras das coincidências, afinal de contas, em uma pequena região, três grupos de formações megalíticas serem apontadas como locais onde ocorrem alinhamentos solares é uma coincidência um tanto grande. Fica evidente a impressão de que o local já foi um dia um grande observatório.


Pedra do Frade

Este sítio está localizado no costão da Barra da Lagoa. Após atravessar a ponte pênsil e a prainha da Barra da Lagoa, seguindo pela Trilha das Piscinas Naturais. Cerca de 10 minutos de caminhada pelo costão nota-se duas colunas de pedras que se destacam em relação ao ambiente, conforme figura abaixo. Percebe-se que as duas pedras permitem a observação de um intervalo do horizonte. O observador não tem opção de se movimentar ao norte, pois há o mar, tampouco ao sul, pois tem o início do Morro do Farol da Barra. Estando de frente à Pedra do Frade e notando o intervalo do horizonte visível entre as duas rochas.


O observador pode testemunhar o nascer do Sol na época do solstício de verão do hemisfério sul (21-22 de dezembro). O ponto de observação está situado a 50 metros da Pedra do Frade e foi encontrada nesta posição uma pedra com linhas onduladas, catalogada por Keler Lucas como SIV-6. Este mesmo sítio está relacionado com o solstício de inverno, bastando o observador se posicionar a sudoeste da Pedra do Frade e notar o nascer do Sol entre as duas rochas.


Continuando o caminho pelo costão encontram-se outros quatro petroglifos em forma de rede, linhas cruzadas e onduladas. Isto é significativo, afinal indica que houve presença humana no local.

Sol nascendo no Solstício de Verão, 22 de dezembro de 2007. Foto de A. Amorim

Ponta do Gravatá

Este sítio possui várias formações rochosas pitorescas, porém uma chama a atenção pelo fato de uma pedra similar a um cubo estar repousada sobre uma plataforma. O ponto de observação é singular, pois situa-se no limite de um pequeno abismo de 5 metros (Figura abaixo).

Posição para observação do nascer do Sol na Ponta do Gravatá por ocasião do Solstício de Verão. Note a sombra da pedra sobre o anteparo em que o observador está situado. Foto de Adnir Ramos
Exatamente nesta posição limite o observador nota a linha do horizonte tocando o ponto entre a pedra e a plataforma. E neste cruzamento de linhas é a posição do nascer do Sol no solstício de verão. Até o momento não se encontrou petroglifos ou outro vestígio de presença humana antiga a não ser na pequena praia do Gravatá onde existem diversos amoladores.

Sol nascendo no Solstício de Verão, 20 de dezembro de 2008. Foto de A. Amorim

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2 Comentários
Comentários
2 comentários:
  1. É triste a população brasileira só saber pensar em "Stonehenge" e Egito. E é mais triste ainda os profissionais que poderiam fazer história com o que sobrou, pois em minha mente deveria ter muito mais coisas comprovando a existência de povos com grande conhecimentos que foram destruídos com a ganancia da procura de gemas preciosas e construções, serem tão passivos.

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  2. Check this: http://tambaki.comunidades.net/

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