03/05/2015

A incrível história de Thor Heyerdahl e a expedição Kon-Tiki



Muitos são os exploradores e pesquisadores que perderam a vida durante o curso de suas pesquisas ou explorações geográficas. Thor Heyerdahl é um desses bravos, e um tanto loucos, estudiosos que arriscam a vida para defender suas teorias. Thor Heyerdahl atingiu grande destaque ao se lançar em uma expedição conhecida como Kon-tiki, a fim de provar suas polêmicas teorias. A história dessa incrível expedição poderia ser o enredo fantástico de um filme de aventura, mas foi um evento real (a história acabou sendo adaptada para o cinema), que foi trazido ao blog Noite Sinistra pelo amigo Elson Antonio Gomes.

Thor Heyerdahl nasceu em 6 de outubro de 1914 em Larvik, Noruega e faleceu em 16 de abril de 2002 (outras fontes afirmam que ele teria morrido no dia 18 de abril) em Colla Micheri, Itália, vítima de um câncer no cérebro. Heyerdahl foi um explorador e arqueólogo de renome mundial. Muito cedo se tornou um entusiasta da natureza, inspirado por sua mãe, diretora do museu local, a tomar interesse em zoologia e ciências naturais. Ainda durante a escola primária, implementou um pequeno museu zoológico em sua casa. Muito cedo também ingressou na prestigiosa Universidade de Oslo, onde se especializou em zoologia e geografia até pouco antes de sua primeira expedição à Polinésia em 1937.

Heyerdahl participou da expedição Kon-tiki, entre outras. Com esta expedição buscava provar que as ilhas do Pacífico poderiam ter sido povoadas a partir da América do Sul. Para tanto, construiu no Peru uma jangada feita de pau de balsa (madeira mais leve que a cortiça), na qual cruzou o Oceano Pacífico desde o Peru até a Polinésia. Após a expedição escreveu um livro chamado Os Índios Americanos no Pacífico (American Indians in the Pacific), onde se pode encontrar material bem abrangente da expedição Kon-Tiki. A epopeia está narrada no livro A Expedição Kon-Tiki, publicado em mais de 60 países e que vendeu mais de 25 milhões de exemplares.

Thor Heyerdahl tem parte de sua família no Brasil, a qual veio para cá há quatro gerações, antes de 1920. O pai de Thor, Bertrand, teve mais três filhos além dele. Um dos filhos também se chamava Bertrand. Bertrand 2º veio para o Brasil, onde teve uma filha, Shirley que seguiu com a família no Brasil.

Os primeiros estudos na Polinésia

Chegando a Polinésia, o jovem estudante Heyerdahl e sua esposa Liv foram adotados pelo chefe da ilha de Taiti, chamado Teriieroo, em 1937. Depois de estudar o modo de vida e os costumes polinésios, o casal Heyerdahl se estabeleceu por um ano inteiro na isolada e solitária ilha de Fatuhiva pertencente ao grupo das ilhas Marquesas.


Enquanto fazia trabalhos de investigação sobre as origens transoceânicas dos animais da ilha, se dedicou profundamente à conhecer as tradições da vida polinésia. Neste período tomou conhecimento das diversas lendas que contavam que homens vindos de além-mar haviam chegado às ilhas da Polinésia levados por Tiki, a quem os nativos consideravam ao mesmo tempo como deus, chefe e filho do sol.

"Quando os primeiros europeus se aventuraram afinal a atravessar o maior dos oceanos, descobriram com espanto que, exatamente no meio dele, existiam ilhotas montanhosas e recifes de coral liso, em geral, segregados uns dos outros e do mundo por vastas áreas de mar. Cada uma destas ilhas já era habitada por povos que aí haviam aportado antes dos europeus. Gente alta e esbelta que veio ao encontro deles, na praia, trazendo cães, porcos e aves domésticas. Donde teriam vindo? Falavam uma língua que nenhum outro povo compreendia. E os homens da nossa raça, que orgulhosamente se intitulavam descobridores das ilhas, encontraram campos cultivados e aldeias com templos e choupanas em cada ilha habitada. Em algumas acharam até velhas pirâmides, ruas calçadas e estátuas de pedra da altura de uma casa europeia de quatro andares. Que povo era aquele e de onde tinha vindo?".

A polêmica teoria de Heyerdahl

Fazendo uma análise e estudo das correntes marítimas e ventos dominantes na região, Heyerdahl começou a questionar a teoria clássica sobre o povoamento da Polinésia. Essa teoria clássica afirma que a Polinésia havia sido povoada por grupos vindos do sul da Ásia, porém para que esses grupos atingissem a Polinésia seria necessário que viajassem 5000 milhas (8046 Km) contra a corrente. Heyerdahl acreditava que esse fator tornaria tal possibilidade pouco provável. Em contrapartida, Heyerdahl se convenceu que os homens haviam vindo do Leste assim como a fauna e flora dessas ilhas.

"Recordo-me como espantei meu pai e assombrei minha mãe e meus amigos quando, de regresso à Noruega, entreguei ao Museu Zoológico da universidade os meus frascos de vidro com escaravelhos e peixes de Fatuhiva. Eu queria dizer adeus à zoologia e dedicar-me ao estudo dos povos primitivos. Haviam-me fascinado os mistérios ainda não decifrados dos mares do sul. Devia haver uma solução racional para eles, e era objetivo meu identificar o lendário herói Tiki".

Deixando de lado seus estudos sobre zoologia, Heyerdahl começou um estudo intensivo para por à prova sua nova teoria sobre as origens da raça e cultura polinésias. Sugeriu que a migração à Polinésia havia seguido a corrente natural do Pacífico Norte e, portanto, direcionou suas investigações para a costa da Columbia Britânica e Peru.

Enquanto trabalhava no Museu da Columbia Britânica, Heyerdahl publicou pela primeira vez sua teoria (International Science, New York, 1941) que sustentava que a Polinésia havia sido povoada por duas orlas sucessivas de imigrantes. Sua teoria sugeria que a primeira orla chegou proveniente do Peru usando balsas de madeira. Centenas de anos depois, um segundo grupo étnico chegou ao Hawaii em canoas duplas provenientes da Columbia Britânica.

Os resultados dos estudos de Heyerdahl foram logo publicados em uma edição de 800 páginas com o título de "Índios Americanos no Pacífico" (Estocolmo, Londres, Chicago, 1952).

"Assim, não somente minhas suspeitas, mas também minha atenção se afastou cada vez mais do Velho Mundo, onde tantos haviam procurado e nenhum havia encontrado nada, e se voltaram para as civilizações indígenas da América, tanto as conhecidas como as desconhecidas, as quais ninguém até então tinha levado em conta. E na costa leste mais próxima, onde hoje a república sul-americana do Peru se estende do Pacífico até as montanhas, não havia falta de vestígios, desde que alguém os procurasse. Ali vivera outrora um povo desconhecido que havia fundado uma das mais estranhas civilizações do mundo, até que, subitamente, há muito, esse povo desaparecera como que varrido da face da terra. Deixou após si enormes estátuas de pedra semelhando seres humanos, que faziam lembrar as de Pitcairn, as ilhas Marquesas e de Páscoa, e imensas pirâmides construídas em degraus como as de Taititi e Samoa. Extraíam das montanhas, com machados de pedra, blocos de tamanho descomunal que transportavam pelo campo, quilômetros a fio, punham em pé ou colocavam uns em cima dos outros formando portões, paredões e terraplanos, exatamente como os vamos encontrar em algumas ilhas do Pacífico".


"Os incas tinham um grande império nessa região montanhosa quando os primeiros espanhóis chegaram ao Peru. Disseram aos espanhóis que os colossais monumentos abandonados lá no meio da paisagem foram erigidos por uma raça de deuses que ali tinham vivido antes dos incas. Esses arquitetos desaparecidos eram, segundo a descrição que deles faziam, mestres sábios, pacatos, oriundos do norte, de onde tinham vindo ainda na aurora dos tempos e que ensinaram aos antepassados dos incas a arquitetura e a agricultura e também os bons costumes e as boas maneiras. Eram diferentes dos indígenas, tendo a pele branca e usando longas barbas; eram também mais altos que os incas. Afinal saíram do Peru tão subitamente quanto haviam chegado; os incas, por seu turno, assenhorearam-se do país, e os mestres brancos desapareceram para sempre da costa sul-americana e fugiram para oeste, atravessando o Pacífico".

"Ora, aconteceu que, quando os europeus chegaram às ilhas do Pacífico, se espantaram de ver que muitos dos nativos tinham a pele branca e eram barbados. Em muitas ilhas havia famílias inteiras notáveis pela palidez da pele, com o cabelo variando entre o avermelhado e o louro, olhos azul-cinzentos e os rostos quase semíticos, de nariz aquilino. Por sua parte, os polinésios tinham a pele bronzeada, cabelo muito preto e nariz chato e carnudo. Os de cabelo vermelho denominavam-se urukehu e se diziam descendentes diretos dos primeiros chefes das ilhas, que eram deuses brancos, tais como Tangaroa, Kane e Tiki. Lendas em torno de brancos misteriosos, dos quais os ilhéus descendiam, eram correntes em toda a Polinésia".

Prosseguindo com suas pesquisas, Heyerdahl encontrou surpreendentes vestígios na cultura, na mitologia e na língua do Peru, que o incentivaram a pesquisar mais profundamente essas lendas, até identificar o lugar e a origem do deus polinésio Tiki quando lia sobre as lendas incas do rei sol Viracocha, que foi o chefe supremo do desaparecido povo branco do Peru.

Viracocha
"Viracocha é um nome inca (quéchua) e, por conseguinte de data bastante recente. O nome original do deus-sol Viracocha, que parece ter sido mais usado no Peru em tempos idos, era Kon-Tiki ou Illa-Tiki, que significa Sol-Tiki ou Fogo-Tiki. Kon-Tiki era sumo sacerdote e rei sol dos lendários "homens brancos" dos incas que tinham deixado as enormes ruínas nas margens do lago Titicaca. Reza a lenda que Kon-Tiki foi atacado por um chefe chamado Cari que veio do vale Coquinho. Numa batalha travada numa ilha do lago Titicaca, os misteriosos brancos barbados foram trucidados, mas Kon-Tiki e seus companheiros mais chegados escaparam e, mais tarde, aportaram à costa do Pacífico, de onde finalmente desapareceram sobre o mar para as bandas do ocidente".

"Mas por toda a Polinésia encontrei indicações de que a pacífica raça de Kon-Tiki não logrou conservar as ilhas só para si por muito tempo. Consoante essas indicações, barcaças guerreiras do tamanho dos navios dos vikings, e amarradas duas a duas, haviam transportado por mar indígenas do nordeste para o Hawaii e mais ao sul para todas as demais ilhas. Estes misturaram seus sangue com o da raça de Kon-Tiki, trazendo nova civilização à ilha de regime monárquico. Foi este o segundo povo da idade da pedra talhada, que veio para a Polinésia em 1100, ignorando a cerâmica, a existência dos metais, e sem rodas, nem teares, nem qualquer cultivo de cereais".

Os estudos de Thor foram interrompidos com o início da Segunda Guerra Mundial e Heyerdahl regressou a Noruega como voluntário nas Forças Armadas Norueguesas, eventualmente servindo como paraquedista em uma unidade de Finmark.

A Expedição Kon-Tiki (1947)

Com o fim da guerra, Heyerdahl retomou suas investigações, mas encontrou uma sólida parede de resistência à suas teorias por parte dos cientistas tradicionais. Para poder dar maior credibilidade aos seus argumentos, Heyerdahl decidiu obter financiamento para a memorável expedição Kon-Tiki, que, usando uma jangada feita de pau de balsa (madeira mais leve que a cortiça), tentaria atravessar o imenso oceano Pacífico desde o Peru até a Polinésia. Muitos o chamaram de louco, e afirmaram que ele e seus colaboradores morreriam durante a travessia, em vista a “precária” embarcação que eles pretendiam usar para tal feito.


Depois de um certo tempo Heyerdahl e seus colaboradores finalmente conseguiram as toras de balsa, que necessitavam para a construção da memorável Kon-Tiki, nas selvas do Equador, e transportaram todo o material para os estaleiros do porto de Callao no Peru onde receberam o apoio da Marinha peruana sob as ordens do presidente peruano na época para construir a jangada.


Em 1947, Heyerdahl e mais cinco tripulantes zarparam de Callao, cruzando 8.000 Km de mar que separam a América do Sul da Polinésia e depois de 101 dias chegaram ao atol de Raroia no Arquipélago das ilhas Tuamotu. Com isso provou que os antigos americanos podiam ter desenvolvido habilidades muito avançadas para a navegação em alto mar e, portanto, podiam ter chegado à Polinésia desta maneira.


Esta espetacular aventura foi relatada em detalhes no seu mais famoso livro "A Expedição Kon-Tiki", publicado em vários idiomas e que vendeu milhares de exemplares pelo mundo.

"Costumávamos sentar-nos no convés sob o céu estrelado e recordar a estranha história da ilha de Páscoa, muito embora a jangada nos estivesse levando diretamente para o coração da Polinésia, de maneira que dessa ilha longínqua nada veríamos, a não ser o seu nome no mapa. Mas a ilha de Páscoa tem tantos traços do oriente que até o seu nome pode servir de indicador".

"No mapa aparece esse nome "Ilha de Páscoa" porque um holandês a "descobriu" num domingo de Páscoa. E nos esquecemos que os próprios nativos que já viviam lá, tinham para a sua terra nomes mais instrutivos e significativos. Esta ilha tem nada menos que três nomes em polinésio".

"Um deles é Te-Pito-te-Henua, que significa "umbigo das ilhas". Este nome poético coloca claramente a ilha de Páscoa numa posição especial em relação às outras ilhas situadas mais para o oeste, sendo, consoante aos próprios polinésios, a mais antiga designação da ilha de Páscoa. Sabemos que a tradição polinésia se refere ao descobrimento das ilhas como o "nascimento" da ilhas, com isto claramente se sugere que, dentre os demais lugares, a ilha de Páscoa era considerada como o símbolo do nascimento das outras ilhas e o traço de união com a mãe pátria original".

"O segundo nome da ilha de Páscoa é Rapa-nui e significa "Grande Rapa", enquanto "Rapa-iti ou "Pequena rapa"" é outra ilha do mesmo tamanho, situada a grande distância a oeste da ilha de Páscoa. É prática natural de todos os povos chamarem sua primeira pátria, por exemplo, Grande Rapa, e ao passo que a seguinte é chamada Nova Rapa ou Pequena Rapa, ainda que os lugares sejam do mesmo tamanho".


"O terceiro e último nome desta ilha-chave é Mata-Kite-Rani e quer dizer "o olho (que) olha (para) o céu". Rani tinha para os polinésios duplo significado. Era também a pátria de origem de seus avós, a terra santa do deus-sol, o montanhoso reino abandonado de Tiki. E é muito expressivo o fato de terem dado precisamente ao posto-avançado que é a ilha de Páscoa, dentre milhares de ilhas do oceano, o nome de olho que olha para o céu. Mais notável é ainda a circunstância de que o nome afim Mata-Rani, que em polinésio significa "o olho do céu", é um velho nome local do Peru, o de um lugar na costa peruana do Pacífico defronte da ilha de Páscoa, e logo abaixo da vetusta cidade em ruínas de Kon-Tiki, nos Andes".

“A ilha de Páscoa, sozinha, nos dava assunto de sobra para conversação enquanto estávamos sentados no convés sob o céu estrelado, sentindo-nos participantes de toda a aventura pré-histórica. Quase nos vinha a impressão de que não fizéramos outra coisa, desde os tempos de Tiki, senão correr o mar sob o sol e as estrelas em busca de terra”.

Expedição a ilha de Páscoa

Continuando suas pesquisas, Heyerdahl idealizou uma expedição arqueológica de grande envergadura à ilha mais distante do Pacífico, a ilha de Páscoa. Um grupo de 23 pessoas chegou à ilha e começou a fazer estudos arqueológicos no subsolo. Rapidamente descobriram que a ilha de Páscoa teve no passado uma grande quantidade de bosques que fora derrubado pelos moradores nativos e que estes também cultivavam muitas plantas oriundas da América do Sul.


Datações através de Carbono-14 mostraram que a ilha havia sido ocupada desde aproximadamente o ano 380 d.C., cerca de 1.000 anos mais cedo do que se acreditava. Escavações indicaram também que muitas obras feitas de pedra eram muito semelhantes às construídas pelas antigas civilizações peruanas. Alguns moradores da ilha contaram que de acordo com suas lendas eles originalmente chegaram provenientes de ilhas do Leste. Os resultados das pesquisas de Heyerdahl foram amplamente discutidos ao serem apresentados no 10º Congresso do Pacífico, em Honolulu (1961), onde diante de todas as provas, as teorias migratórias de Heyerdahl adquiriram grande importância e influência.

"E onde parou a ciência principiou a imaginação. Os misteriosos monólitos da ilha de Páscoa e todas as outras relíquias de origem desconhecida existentes nessa ilha pouco exposta, a qual fica em completa solidão a meio caminho entre as ilhas mais próximas e a costa sul-americana, deram ensejo a todo gênero de especulações. Muitos repararam que os achados da ilha de Páscoa faziam lembrar de muitas maneiras as relíquias das civilizações pré-históricas da América do Sul. Teria existido outrora uma porte de terra sobre o mar, e esta haveria submergido? Não seria a ilha de Páscoa, e todas as demais ilhas do Mar do Sul que tinham monumentos da mesma espécie, restos que um continente submerso deixara em relevo na superfície do oceano?"

"Tem sido esta entre leigos uma teoria popular e uma explicação plausível, mas os geólogos e outros investigadores não lhe dão importância. Demais, os zoólogos provam facilmente, pelo estudo de insetos e caracóis das ilhas dos mares do Sul, que, durante toda a história da humanidade, essas ilhas estiveram isoladas umas das outras e dos continentes que as rodeiam tão completamente como o estão hoje."

"Sabemos, portanto, com absoluta certeza, que a primitiva raça polinésia deve ter vindo em alguma época, espontaneamente ou não, ao sabor das águas ou com a força das velas de uma embarcação qualquer, até essas ilhas longínquas."

Prêmios concedidos

Thor Heyerdahl recebeu várias medalhas, prêmios e condecorações. Foi membro regular de vários congressos científicos, membro de honra do Congresso Internacional de Americanistas, Congresso de Ciências do Pacífico e do Congresso internacional de Antropologia e Etnologia.

Últimos dias no Peru

Thor Heyerdahl passou os últimos anos de sua vida de intensa atividade no Peru, principalmente em Chiclayo e Motupe onde continuou com suas investigações, muitas vezes superando as poderosas superstições da região. Graças aos seus estudos foi possível demonstrar que os antigos povos que habitavam a costa oeste da América do Sul, especialmente no Peru, possuíam grande habilidade no campo da navegação e sobretudo muita força e coragem.


Thor Heyerdahl morreu em 18 de abril de 2002 em sua casa na Itália depois de 87 anos dedicando sua vida às descobertas dos enigmas da humanidade.

Entrevista de Thor Heyerdahl concedida a revista Super Interessante

Mais abaixo os amigos e amigas poderão conferir uu trecho de uma matéria publicada no site da Revista Super interessante sobre o aventureiro Thor Heyerdahl.

No dia 16 de abril, ao morrer de câncer no cérebro, o norueguês grandalhão, de 87 anos, que encantou o mundo com suas aventuras fez sua última viagem. Poucos meses antes, quando concedeu essa entrevista, ele continuava defendendo idéias polêmicas. Em um dos seus projetos recentes, Thor viajava em busca de evidências arqueológicas que comprovassem a sua tese de que os vikings se originaram do Mar Cáspio, na Rússia, e só depois migraram para os países nórdicos. Apesar da voz cansada, já abatida pela doença, seus olhos azuis ainda brilhavam quando conversava sobre esses temas na casa em que vivia na ilha espanhola de Tenerife, no que viria a ser um de seus últimos depoimentos.

Super – Por que o senhor decidiu construir a balsa Kon-Tiki, em 1947?
Queria mostrar aos cientistas que o homem sempre buscou expandir seus horizontes. Com a Kon-Tiki, quebrei o dogma de que as barcas de junco não poderiam agüentar uma travessia da costa do Peru até a do Taiti.

Por que o senhor foi tão criticado por alguns cientistas?
Alguns acreditavam que a expedição de 101 dias da Kon-Tiki fora uma montagem publicitária, pois uma balsa com aquelas características não poderia durar mais de duas horas sem afundar. Quando eles viram o documentário, apesar de malfeito e danificado pelas condições climáticas, ficaram calados. Ainda hoje tenho muitos inimigos. Eles já não duvidam das minhas expedições, mas contestam a capacidade de alguns povos do passado de navegar longas extensões marítimas.

Quais são os principais pontos de contestação das suas idéias?
Eles não admitem, por exemplo, que o deus Kon Tiki da Polinésia seja o mesmo Viracocha, o deus barbado e de pele branca que era venerado no lago Titicaca, entre o Peru e a Bolívia. Na verdade, ele surgiu nos Andes e foi levado pelos navegantes pré-incas até a Polinésia, a milhares de quilômetros de distância. Além disso, existem inúmeras semelhanças entre as estátuas encontradas nas ilhas do Pacífico e algumas feitas pelas antigas civilizações da América do Sul e da América Central, sugerindo um intercâmbio cultural maior do que os arqueólogos imaginam até hoje.

Mas só existem essas provas?
Não, apenas lhe dei um exemplo. Posso lhe dar outros: os polinésios usavam um complicado sistema de cordas com nós que servia de código para guardar informações, iguais aos usados pelos incas do Peru. Na Polinésia, foi encontrado um tipo de pedra, o lápis-lazuli, que só existe no Chile, e uma espécie de concha que é típica do Panamá e do Equador. A partir desse e de outros dados, especialmente botânicos, concluí que os primeiros homens que povoaram as ilhas dos mares do Sul chegaram lá por volta do século V antes de Cristo, procedentes do Sudoeste asiático. Um onda migratória expressiva chegaria mais tarde, por volta de 1.100 d.C., procedente da América do Sul.

Entre 1937 e 1938, o senhor viajou até a ilha Fatu Hiva, no arquipélago das Marquesas, junto com a sua primeira esposa, para viver como Adão e Eva...

O capitão do barco nos deixou naquela ilha e só voltou um ano depois para nos buscar. Fomos morar no meio do mato. Comíamos tudo o que a terra dava, desde cocos até raízes, além de peixes. Quisemos experimentar como viviam os nativos no seu estado mais natural. Foi, na verdade, um exercício filosófico que valeu a pena.

E que respostas encontrou nessa viagem?
Primeiro, que o homem ocidental não pode voltar ao seu estado natural. E, em segundo lugar, que o vento e as correntes marítimas eram a chave do mistério da origem da vida sobre as ilhas da Polinésia. Compreendi que a civilização é necessária para o homem moderno. Porém, o homem primitivo foi mais feliz, apesar das dificuldades de sobrevivência e de um período de vida mais curto.

O que os nativos da ilha lhe ensinaram?
Tínhamos um mestre espiritual, um ancião chamado Tei Tetua, o último sobrevivente de um grupo de canibais. Ele foi convertido ao Cristianismo mas chegou a provar carne humana quando era jovem. Foi ele quem despertou minha atenção para uma estranha lenda, a do deus Tiki, o filho do Sol de pele branca , narrada pelos seus antepassados. Tiki chegou pelo mar vindo do leste, procedente de uma terra enorme chamada Fiti-Nui. Foi esse dado que me fez pensar que os polinésios receberam a visita de um rei, pertencente a alguma civilização do Peru, trazido pelas correntes marítimas.

O senhor já esteve no Brasil?
Sim, há muito tempo. Foi em 1954, quando fui convidado a participar do 30º Congresso de Americanistas que se realizou em São Paulo. Estava então acompanhado da minha esposa Yvonne. Tinha curiosidade de conhecer os índios amazônicos. Por isso, peguei um monomotor até Santa Isabel, nas margens do rio Araguaia. O avião fez um pouso forçado durante a viagem. Tivemos que voltar remando em uma canoa junto com o piloto e dois índios carajás.

O que mais lhe impressionou durante a viagem?
Durante vários dias, vimos somente a selva verde, a água marrom, muitos pássaros multicoloridos e macacos escandalosos. Achei impressionante quando milhares de olhos brilhantes nos espreitavam à noite: eram jacarés. Foi fantástico. Filtrávamos a água barrenta com os lenços, comíamos raízes e ovos de tartarugas.

O senhor é considerado um grande ecologista, uma faceta menos conhecida dos seus leitores...
Acho que fui um dos primeiros ecologistas da história, pelo menos do ponto de vista atual, pois os indígenas sempre foram os que entenderam melhor as relações entre o homem e a natureza e o respeito que se deve ter por ela. Militei durante muitos anos junto ao World Wildlife Fund (Fundo Mundial Para a Vida Selvagem) e à Cruz Verde Internacional, ambos dedicados à preservação do meio ambiente.

Quais são seus mais recentes projetos e pesquisas?
Estou muito interessado na busca da origem dos vikings. Eu mesmo tenho financiado expedições até o Mar Cáspio, na Rússia. Ali viveram os azarís, um povo que migrou até latitudes nórdicas e se tornou viking. Nas rochas encontrei muitas inscrições com embarcações semelhantes aos drakares vikings.

Filme “Expedição Kon-Tiki”

Título Original: Kon-Tiki
País de Origem: Reino Unido / Alemanha
Gênero: Aventura
Duração: 118 Minutos
Ano de Lançamento: 2012

Sinopse:
Este drama, inspirado na história real de Thor Heyerdahl, mostra a expedição Kon-Tiki. Em 1947, este pesquisador tinha uma tese ousada para a época: ele acreditava que a Polinésia tinha sido ocupada primeiro pelos povos da América do Sul, e não pelos povos do oeste, como diziam os livros de História. Para comprovar que essa versão da história era possível, Thor decidiu construir uma pequena jangada, com os mesmos materiais de séculos atrás, e chamou cinco tripulantes inexperientes para partir com ele em uma viagem de três meses, considerada por todos como uma aventura suicida. Enquanto flutuam pelo oceano Pacífico, torcendo para serem levados à direção correta, os homens enfrentam problemas com tempestades, tubarões, baleias, recifes de corais e com a própria jangada, que corre o risco de se desfazer a qualquer momento.

Agradecimentos ao amigo Elson Antonio Gomes pela dica.

Fontes: Wikipédia e Super Interessante


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1 Comentários
Comentários
Um comentário:
  1. Pessoal,
    gostaria de deixar bem claro de que só mandei o link do filme para o Fernando (Adm) assistir, pois sei de que como eu, ele também curte este assunto. Tanto que tem no marcador do blog "arqueologia".
    Este foi meu único papel nesta postagem.
    Sendo assim, o excelente texto que nos trás um grande aprendizado para quem se interessa é totalmente do 'Adm'.

    Então parabéns 'Adm', seu texto nesta postagem é magnifico, de uma riqueza cultural enorme!

    E a frase que o Thor Heyerdahl diz em sua entrevista é para se refletir muito, pois se prestarmos atenção, ela é bem verdadeira: "...que o homem ocidental não pode voltar ao seu estado natural...".

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