26/03/2014

Tortura e morte no estádio Nacional do Chile


Olá amigos e amigas...Há algumas semanas atrás eu publiquei um texto falando da tragédia ocorrida no estádio Nacional do Peru (clique aqui para recordar), onde cerca de 318 pessoas perderam a vida. Neste ano a copa do mundo será realizada no Brasil, como todos nós sabemos. Eu acho interessante abordar alguns textos sobre como o futebol esteve envolvido em eventos históricos ao redor do mundo, algumas vezes trazendo uma bela mensagem, e outras vezes perdendo espaço para a selvageria. Hoje conheceremos uma sombria curiosidade histórica envolvendo o regime militar chileno e um dos maiores palcos da bola naquele país.

O estádio


O Estádio Nacional Julio Martínez Prádanos, mais conhecido como Estádio Nacional do Chile, é um estádio multiuso localizado em Santiago, capital do Chile. Tem capacidade para 47.000 torcedores. É onde a Seleção Chilena de Futebol e o time da Universidad de Chile jogam com mais frequência.


Construído entre 1937 e 1938 pelo arquiteto austríaco Karl Brunner, o estádio foi inaugurado em 3 de Dezembro de 1938 pelo Presidente da República Arturo Alessandri Palma. A inspiração foi no Estádio Olímpico de Berlim (sede das Olimpíadas dois anos antes).

O regime militar

No dia 11 de setembro de 1973 o golpe militar era consumado no Chile. Chefe do exército, Augusto Pinochet comandava o ataque ao Palacio de la Moneda, casa presidencial chilena. Os aviões cruzaram os céus de Santiago e bombardearam a residência oficial de Salvador Allende. Acuado, o presidente se suicidou. O caminho estava aberto para a instauração da ditadura que durou mais de 15 anos e que deixou marcas profundas na população.


Dentro deste contexto, o futebol possui uma relação muito próxima com a imposição do golpe no Chile. Afinal, um dos principais instrumentos utilizados pelos militares foi o Estádio Nacional de Santiago, transformado em máquina de tortura. O estádio serviu de cadeia para cerca de 40 mil presos político, abrigando os métodos de coerção do regime e até mesmo o assassinato de oposicionistas. Presos eram interrogados na pista olímpica que naquela época circundava o gramado. Muito presos foram torturados no local com os outros presos assistindo, o que serviu como forma de aviso para aqueles que estavam esperando sua vez.


Também em 1973, no próprio Estádio Nacional, o Chile disputaria o jogo de volta da repescagem das Eliminatórias, contra a União Soviética. Um dos momentos de maior influência política em Mundiais, que acabou com um resultado patético.

O primeiro confronto entre as duas equipes aconteceu no dia 26 de setembro de 1973, no estádio Lênin, na capital Moscou, os dois times empataram em zero a zero. Para a partida de volta em Santiago, uma comissão da Fifa foi averiguar as condições do Estádio Nacional, centro de torturas do regime de Pinochet. Misteriosamente, a entidade presidida por Stanley Rous se reuniu com o ministro da Defesa e não encontrou qualquer óbice à realização do confronto. No entanto, os soviéticos se recusaram a disputar o jogo em um estádio que, segundo eles, estava “salpicado com o sangue dos patriotas chilenos”. A Fifa tentou fazer com que o time da casa mudasse o local do encontro, mas não houve acordo.


Os soviéticos se recusaram a enfrentar o Chile, portanto dessa forma o Chile acabou confirmado na copa do Mundo de 1974, por ter vencido por W.O. Porém na data marcada para a partida, o estádio se encontrava repleto de torcedores, que assistiram uma toca de passes que durou 50 segundos, até que a seleção chilena concluísse para o gol vazio, concretizando assim a "vitória" frente aos adversário soviéticos que não entraram em campo.


Mas a alta cúpula chilena decidiu que uma partida de futebol seria realizada para ratificar a classificação do Chile para a copa do mundo, ou pelo menos para ser usada como motivos para festividades, afinal se o governo não dá pão ao povo deve entretê-lo com espetáculos. O time escolhido foi o Santos Futebol Clube, que naquela época dominava completamente o futebol sul Americano. Do lado de cá, recusar um convite desses poderia trazer muitos problemas ao clube, já que o presidente Médici, o mais sanguinário do período autoritário, era aliado de Pinochet.

O ditador das Cordilheiras pretendia homenagear Pelé para completar a “festa”. Mas o Rei não entrou em campo, sob alegação de contusão. Não se sabe se real ou fictícia, mas era uma forma de burlar sutilmente o circo pinochetista. E, diante de 25 mil espectadores, a equipe de branco entrou em campo para enfrentar os chilenos.

O resultado do embate? Sonoros 5x0 para a equipe brasileira, com dois gols de Nenê Belarmino (hoje técnico), dois de Eusébio e outro do magnífico Jonas Eduardo Américo, vulgo Edu.

Nos anos seguintes, o futebol continuou servindo como arma contra a ditadura. O maior símbolo deste momento foi Carlos Caszely, protegido por jogar no exterior e por ser uma peça imprescindível para que a seleção seguisse vencendo e podendo ser usada politicamente, o goleador pôde demonstrar sua inconformidade com Augusto Pinochet de forma que outros chilenos temeriam fazer, porém a mãe do astro da seleção, acabou torturada pelos militares, conforme podemos ler no depoimento abaixo.


“Eu fui sequestrada de minha casa e levada a um lugar desconhecido, com os olhos vendados, onde fui torturada e vexada brutalmente. Foram tantas as vexações que eu sequer contei todas, por respeito a meus filhos, a meu esposo, a minha família. Por respeito a mim mesma. As torturas físicas, na realidade, você consegue apagar. Mas as torturas morais não creio que as apague tão facilmente. Não consigo esquecê-las, porque ainda as tenho muito encravadas em minha mente e em meu coração. Por isso, eu voto que “não”, para que, amanhã, todos juntos vivamos nossa democracia livre, sem ódios, com amor e com alegria”.

Mesmo assim Caszely utilizou sua convicção para articular a campanha que resultou na reabertura do Chile. E ainda hoje, os reflexos da ditadura são evidentes na sociedade chilena. Mesmo agora, após 40 anos do golpe, a Anistia Internacional chegou até mesmo a incentivar uma campanha entre os jogadores da seleção. A ideia não foi aderida, embora os sinais de manifestação em prol da liberdade e do nacionalismo tenham sido evidentes nas arquibancadas.

Um relato de quem esteve lá

Clayton Netz, jornalista, viveu exilado no Chile entre 1971 e 1973 e esteve preso no Estádio Nacional do Chile transformado em campo de concentração na triste era Pinochet. Eis o relato publicado hoje no jornal O Estado de S.Paulo, 11-12-2006.

"Entrei no Estádio Nacional do Chile em 2 de outubro de 1973, numa manhã ensolarada de primavera. Era a segunda vez que visitava o principal templo do sofrível futebol chileno desde meu desembarque em Santiago, dois anos antes. Na primeira ocasião, fora assistir à festa de despedida de Fidel Castro, com direito a um de seus quilométricos discursos. Dessa vez, no entanto, não estava ali por vontade própria. A bordo de uma camionete, chegara escoltado por três detetives da central da Polícia Civil do Chile. O Estádio Nacional fora transformado num campo de concentração onde estavam confinados milhares de trabalhadores, intelectuais e membros dos partidos de esquerda, detidos desde as primeiras horas do golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende.

Soldado passa cigarros a prisioneiros nas arquibancadas do estádio. Muitos dos recrutas cumpriam o serviço militar obrigatório e, sem concordar com o golpe, viram-se obrigados a vigiar os prisioneiros políticos. (foto do Museu da Memória e dos Direitos Humanos do Chile)
Como a maior parte das centenas de estrangeiros que lá estavam, o motivo da minha prisão foi exatamente o fato de ser estrangeiro - o golpe desencadeara uma onda xenofóbica nunca vista. Além de ser brasileiro, asilado, era portador de material altamente subversivo, no entender dos Carabineros (policiais militares): os livros Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski, e Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenitsin...

Tão logo os policiais civis me entregaram aos militares, fui conduzido junto a um grupo de presos recém-chegados a uma ala na parte inferior do estádio, onde deveriam ficar os prisioneiros que ainda teriam de passar por interrogatório.

Como sinal de boas-vindas, não nos serviram nada para comer nas primeiras 24 horas. O mesmo tipo de gentileza foi reproduzido na hora de dormir: amontoados, tivemos de nos estender sobre o ladrilho frio do vestiário.


Depois de meu interrogatório, meus inquiridores recomendaram `liberdade condicional`. Imaginei que em pouco tempo estaria em casa novamente. Engano. A recomendação valia apenas para os chilenos, que iam sendo liberados em doses homeopáticas diariamente.

O jeito foi nos munir de paciência à espera de que a pressão internacional fizesse com que os militares nos liberassem. Àquela altura, os organismos internacionais como o Alto Comissariado da ONU para Refugiados e entidades como a Cruz Vermelha já haviam conseguido furar o bloqueio dos militares, entrando no estádio e fazendo contato com os prisioneiros. Com isso, diminuía a possibilidade de desaparecimentos ou fuzilamentos, como aconteceu nos dias imediatamente seguintes ao golpe. O que não impediu que um dos presos, o ex-capitão da PM de São Paulo Vânio José de Matos, diagnosticado com uma grave infecção intestinal, acabasse morrendo por falta de tratamento adequado. Ou que agentes do Cenimar, o serviço de inteligência da Marinha do Brasil, tenham recebido livre acesso para interrogar alguns brasileiros, ao mesmo tempo em que brindavam seus colegas chilenos com uma aula prática de pau-de-arara, usando como cobaia um de nossos companheiros.

A chegada do Cenimar aconteceu nas últimas semanas da nossa permanência no campo de concentração. Logo voltamos à rotina de todos os dias: acordar, tomar o café insatisfatório, ficar sentados nas arquibancadas do estádio o resto do dia, com uma breve interrupção para o almoço. Nos intervalos, inclusive à noite, passávamos o tempo conversando ou então assistindo ou participando de shows organizados pelos prisioneiros.

Nossa saída, no começo de novembro, foi precipitada por um fato não previsto pelos militares: a proximidade da partida entre a Seleção do Chile e a da então União Soviética, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1974. Pressionados pela FIFA, que, inclusive, enviou uma delegação para verificar se o Estádio Nacional estava sendo utilizado como campo de prisioneiros - desnecessário dizer que os militares tentaram `esconder` os detidos, trancando-os nos vestiários -, tiveram de esvaziá-lo a toque de caixa, enviando os presos para outros locais ou entregando-os à proteção da ONU, como foi o nosso caso."


Fontes: Impedimento, Trivela, Wikipédia e O Estado de S.Paulo

4 Comentários
Comentários
4 comentários:
  1. Militares torturadores FDP a hora de vocês vai chegar.

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    Respostas
    1. Em partes eu concordo com vc...Digo em partes por um motivo...geralmente quando algum torturador é preso, na maioria das vezes essa pessoa fazia o que lhe era ordenado...quando falamos em prender os culpados, isso deve valer para todos os envolvidos, especialmente a alta cúpula, que foram os que se beneficiaram mais...tipo o general Pinochet...

      Grato pela participação Grampola...

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  2. Ola, tudo bom contigo ?
    ADOREIIIIIII
    bjos

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