28/06/2015

Cine Sinistro 8: Elephant (2003)


Saudações amigos e amigas. Hoje compartilho com vocês a oitava edição do Cine Sinistro, que retorna trazendo a vocês um filme (assista aos final desse texto) baseado em fatos reais. O filme Elephant é inspirado na história do Massacre de Columbine (clique AQUI para ler sobre), que foi um dos mais marcantes e trágicos ataques realizados contra um colégio norte americano.

O filme Elephant dá um enfoque especial a rotina dos estudantes da escola Columbine, mostrando cenas do ponto de vista dos outros estudantes, que acabaria se tornando as vítimas da dupla de atiradores. O filme não apresenta cenas de ação e tampouco atos heroicos tão típicos em muitos filmes de Hollywood. A intenção dessa obra e chamar a atenção para as singularidades de cada individuo mostrado na trama, sendo que muitas vezes uma cena é mostrada mais de uma vez, porém de diferentes pontos de vista.


O filme possui um ritmo lento, o que pode dar a ele o status de chato, e o desfecho da história não é totalmente fiel aos fatos acontecidos em 20 de abril de 1999 quando Eric Harris e Dylan Klebold assassinaram 13 pessoas do próprio colégio, mesmo assim considero um filme interessante. Abaixo vocês poderão ler uma resenha escrita por Gustavo Ioschpe em 2004, a respeito do filme Elephant.

As crianças e o elefante

O assassinato de inocentes sempre incomoda. Também a morte de crianças ou jovens gera um profundo mal-estar. Ambos são uma perturbação de ordem natural das coisas que parecem requerer uma explicação, uma justificativa que ameniza a dor da perda. Pode-se imaginar que quando crianças inocentes são mortas aleatoriamente, as dimensões do trauma mobilizam sociedades e demandam compreensão e punição aos culpados.


No caso do infame tiroteio na escola de Columbine, que tirou a vida de 13 pessoas no Estado americano de Colorado, em 1999, a sede de vingança e esclarecimento foi frustrada pelo suicídio dos criminosos. Partiram sem deixar traços nem razões para seu massacre. De lá para cá, livros, artigos, filmes e tudo o mais apontaram as mais mirabolantes razões e os mais diversos culpados: desde a música de gente como Marylin Manson até a violência do cinema; da cultura competitiva das high schools americanas à adoração por armas daquele país (esta última tratada com maniqueísmo ímpar por Michel Moore em Bowling for Columbine).

Elephant, o mais recente filme de Gus Van Sant, tem certamente muitas virtudes estilísticas, mas seu maior trunfo está em sua proposta: trata desse crime hediondo sem buscar nem oferecer explicações ou identificar culpados.

A fita se ocupa com um dia normal de uma escola qualquer de um subúrbio americano. Van Sant enfoca um punhado de pessoas e grupos de complicada antropologia das high schools, com a coexistência de atletas e fotógrafos, pessoal cool e nerd, patricinhas e enjeitadas, mandarins e excluídos, crianças angelicais com seus pais bêbados. Vê-se, ao final, que a convivência aparentemente pacífica guardava em seu ventre o germe da violência: de maneira quase idílica e certamente metódica, dois alunos trazem para seus longos e escuros corredores um arsenal de guerra e usam-no para matar quem estiver em sua frente.


É certamente um mérito desse diretor que sua firme condução de narrativa pareça quase inexistente: à primeira vista, Elephant lembra um documentário do estilo “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. A ação não parece conduzir a lugar algum, e nem a descrição dos personagens nos causa empatia, antagonismo ou compaixão para com carrascos ou vítimas. A câmera passeia pelos corredores, mostrando o fotógrafo do jornal escolar, o esportista popular, a aluna bibliotecária que não quer mostrar suas pernas nas aulas de educação física e as patricinhas fúteis que só fazem falar de compras e, em ritual bulímico de primeira grandeza, regurgitar seus almoços no lavabo da lanchonete. Ocasionalmente, vêem-se os futuros assassinos tomando leite ou bolas de cuspe, jogando piano e videogame – suportando, até, com certa galhardia, algumas das crueldades que a idade lhes impõe. Essa fluidez é ainda mais notável quando se sabe que Van Sant utilizou um elenco de amadores – jovens de sua cidade de Portland, sem treinamento cênico formal.


À medida que a história se desenrola, cria-se, por meio de sutilezas – um plano aberto do céu que se encobre, as sombras nos longos e desertos corredores da escola, a utilização primorosa da música, especialmente a Für Elise, de Beethoven – um clima ominoso da tragédia vindoura; um suspense tão mais carregado e incômodo justamente por não dar ao espectador razões concretas para senti-lo. Pressente-se que algo terrível está prestes a acontecer e sabe-se, pelo evento que inspirou o filme, qual será seu final, mas permanece a dúvida de como e por que o inexplicável há de acontecer.

Elephant é um filme extremamente literário. Não só por sua técnica do contraponto à la Huxley em livro do mesmo nome, em que os mesmos fatos são vistos e narrados por pessoas diferentes, mas principalmente por seu conteúdo. Como num bom livro, o texto em si é apenas uma camada – e a mais superficial – da leitura. Por baixo dele, há o contexto das motivações a impelir os protagonistas, e esse cabe ao leitor/espectador interpretar, especular, talvez decifrar. É um filme que força a imaginação, que deixa o cinéfilo perplexo ao final da sessão, sem saber se gostou ou não e por quê.

Talvez por isso o filme tenha sido calorosamente recebido no país dos livreiros às margens do Sena, onde levou a Palma de Ouro e prêmio de Melhor Diretor em Cannes, e visto com certa frieza e às vezes reprovação nos Estados Unidos, onde o imediatismo é indispensável e a amoralidade é imoral.

Para o conjunto de obra de Van Sant, Elephant é um reencontro. Depois de vários filmes tão moralizantes quanto medíocres (alguém se lembra de Encontrando Forrester?) e outros desbragadamente comerciais (Gênio Indomável), o diretor retorna à originalidade perturbadora dos filmes que o fizeram merecer um lugar nestas páginas, como Drugstore Cowboy e My Own Private Idaho. Que seja para ficar!


Clique AQUI e assista ao filme

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