09/04/2014

O jogo da morte: A equipe de futebol que preferiu morrer a entregar o jogo


Em vista da copa do mundo que se realizará aqui no Brasil em alguns meses, nas últimas semanas estamos abordando nas páginas do Noite Sinistra, histórias, nem sempre belas, relacionadas ao futebol. Se os textos das últimas semanas não tinham nada de "inspirador", a história de hoje fala de uma partida, que é conhecida como "O jogo da Morte", onde alguns atletas ucranianos resolveram enfrentar a tirania, mesmo que isso significasse a sua morte.

A história do futebol mundial inclui vários episódios emocionantes e comoventes histórias de superação, mas seguramente nenhuma seja tão terrível como a protagonizado pelos jogadores do Dínamo de Kiev nos anos 40. Os jogadores jogaram um partida sabendo que se ganhassem seriam assassinados e, no entanto, decidiram ganhar. Na morte deram uma lição de coragem, de vida e honra, que não encontra, por seu dramatismo, outro caso similar no mundo, e provavelmente jamais acontecerá novamente algo do tipo, uma vez que atualmente a maioria dos jogadores de futebol joguem por apenas pelos lucros e não pelo orgulho ou ideologias. Não me atrevo a criticar tais jogadores, afinal no mundo atual parece que honra não é algo que os sábios catedráticos da internet conheçam, uma prova disso são os comentários que algumas pessoas deixaram na postagem que fala de Hiroo Onoda, o soldado japonês que, seguiu as ordens de um superior, e defendeu uma ilha mesmo depois do final da guerra.

Para compreender a decisão daquele time, é necessário conhecer como chegaram a jogar aquela decisiva partida, e por que um simples encontro de futebol apresentou para eles o momento crucial de suas vidas.

Os Nazistas tomam Kiev

Tudo começou em 19 de setembro de 1941, quando a cidade de Kiev (capital ucraniana) foi ocupada pelo exército nazista, e os homens de Hitler aplicaram um regime de castigo impiedoso e arrasaram com tudo. A cidade converteu-se num inferno controlado pelos nazistas, e durante os meses seguintes chegaram centenas de prisioneiros de guerra, que não tinham permissão para trabalhar nem viver nas casas, assim todos vagavam pelas ruas na mais absoluta indigência. Entre aqueles soldados doentes e desnutridos, estava Nikolai Trusevich, que tinha sido goleiro do Dínamo.


Josef Kordik, um padeiro alemão que morava em Kiev, e a quem os nazistas não perseguiram, precisamente por sua origem, era torcedor fanático do Dínamo. Num dia caminhava pela rua quando, surpreso, olhou um mendigo e de imediato se deu conta de que era seu ídolo: o gigante Trusevich.

Ainda que fosse ilegal, mediante artimanhas, o comerciante alemão enganou aos nazistas e contratou o goleiro para que trabalhasse em sua padaria. Sua ânsia por ajudá-lo foi valorizado pelo goleiro, que agradecia a possibilidade de se alimentar e dormir debaixo de um teto. Ao mesmo tempo, Kordik emocionava-se por ter feito amizade com a estrela de sua equipe da qual era fã.

Na convivência, as conversas sempre giravam em torno do futebol e do Dínamo, até que o padeiro teve uma ideia genial: encomendou a Trusevich que em lugar de trabalhar como ele, amassando pães, se dedicasse a buscar o resto de seus colegas. Não só continuaria lhe pagando, senão que juntos podiam salvar os outros jogadores.

O arqueiro percorreu o que restara da cidade devastada dia e noite, e entre feridos e mendigos foi descobrindo, um a um, a seus amigos de clube. Kordik deu trabalho a todos, se esforçando para que ninguém descobrisse a manobra. Trusevich encontrou também alguns rivais do campeonato russo, três jogadores da Lokomotiv, e também os resgatou. Em poucas semanas, a padaria escondia entre seus empregados uma equipe completa.

Reunidos pelo padeiro, os jogadores não demoraram em dar o seguinte passo, e decidiram, alentados por seu protetor, voltar a jogar. Era, além de escapar dos nazistas, a única coisa que sabiam fazer bem. Muitos tinham perdido suas famílias nas mãos do exército de Hitler, e o futebol era a última sombra mantida de suas vidas anteriores.

Como o Dínamo estava enclausurado e proibido, deram um novo nome para aquela equipe. Assim nasceu o FC Start, que através de contatos alemães começou a desafiar a equipes de soldados inimigos e seleções formadas no III Reich.

O futebol como arma contra a tirania

Em sete de junho de 1942, jogaram sua primeira partida. Apesar de estarem famintos e cansados por terem trabalhado toda a noite, venceram por 7 a 2. Seu seguinte rival foi a equipe de uma guarnição húngara, ganharam de 6 a 2. Depois meteram 11 gols numa equipa romena. A coisa ficou séria quando em 17 de julho enfrentaram uma equipe do exército alemão e golearam por 6 a 2. Muitos nazistas começaram a ficar chateados pela crescente fama do grupo de empregados da padaria e buscaram uma equipe melhor para ganhar deles. Trouxeram da Hungria (que era um país que não ofereceu resistência ao exército nazista e dessa forma foi tido como país aliado de Hitler) o MSG com a missão de derrotá-los, mas o FC Start goleou mais uma vez por 5 a 1, e mais tarde, ganhou de 3 a 2 na revanche.


Em seis de agosto, convencidos de sua superioridade, os alemães prepararam uma equipe com membros da Luftwaffe, o Flakelf, que era uma grande time, utilizado como instrumento de propaganda de Hitler. Os nazistas tinham resolvido buscar o melhor rival possível para acabar com o FC Start, que já gozava de enorme popularidade entre o sofrido povo refém dos nazistas. A surpresa foi grande, porque apesar da violência e falta de esportividade dos alemães, o Start venceu por 5 a 1. As vitórias do FC Start serviam de motivo de orgulho para o povo local, e até mesmo para a população de outras cidades arrasadas pela guerra. Esse povo tinha no seu íntimo uma vontade sem tamanho de chutar as bundas nazistas, mas era algo impossível antes da virada na guerra, portanto as vitórias no campo de futebol inflamavam a população.

Depois dessa escandalosa queda do time de Hitler, os alemães descobriram a manobra do padeiro. Assim, de Berlim chegou uma ordem de acabar com todos eles, inclusive com o padeiro, mas os hierarcas nazistas locais não se contentaram com isso. Não queriam que a última imagem dos ucranianos e russos que formavam o FC Start fosse uma vitória, porque acreditavam que se fossem simplesmente assassinados não fariam nada mais que perpetuar a derrota alemã.

A superioridade da raça ariana, em particular no esporte, era uma obsessão para Hitler e os altos comandos. Por essa razão, antes de fuzilá-los, queriam derrotar o time em um jogo.


Com um clima tremendo de pressão e ameaças por todas as partes, anunciou-se a revanche para 9 de agosto, no estádio Zenit. Antes do jogo, um oficial da SS entrou no vestiário e disse em russo:

- "Vou ser o juiz do jogo, respeitem as regras e saúdem com o braço levantado", exigindo que eles fizessem a saudação nazista.

Já no campo, os jogadores do Start (camisa vermelha e calção branco) levantaram o braço, mas no momento da saudação, levaram a mão ao peito e no lugar de dizer: - "Heil Hitler!", gritaram - "Fizculthura!", uma expressão soviética que proclamava a cultura física.

Time alemão fazendo sua reverência antes do jogo
Os alemães (camisa branca e calção negro) marcaram o primeiro gol, mas o Start chegou ao intervalo do segundo tempo ganhando por 2 a 1.

Receberam novas visitas ao vestiário, desta vez com armas e advertências claras e concretas:

- "Se vocês ganharem, não sai ninguém vivo". Ameaçou um outro oficial da SS. Os jogadores ficaram com muito medo e até propuseram-se a não voltar para o segundo tempo. Mas pensaram em suas famílias, nos crimes que foram cometidos, na gente sofrida que nas arquibancadas gritava desesperadamente por eles e decidiram, sim, jogar.

Deram um verdadeiro baile nos nazistas. E no final da partida, quando ganhavam por 5 a 3, o atacante Klimenko ficou cara a cara com o arqueiro alemão. Deu lhe um drible deixando o coitado estatelado no chão e ao ficar em frente a trave, quando todos esperavam o gol, deu meia volta e chutou a bola para o centro do campo. Foi um gesto de desprezo, de deboche, de superioridade total. O estádio veio abaixo.

Como toda Kiev poderia a vir falar da façanha, os nazistas deixaram que saíssem do campo como se nada tivesse ocorrido. Inclusive o Start jogou dias depois e goleou o Rukh por 8 a 0. Mas o final já estava traçado: depois dessa última partida, a Gestapo visitou a padaria.

O primeiro a morrer torturado em frente a todos os outros foi Kordik, o padeiro. Os demais presos foram enviados para os campos de concentração de Siretz. Ali mataram brutalmente a Kuzmenko, Klimenko e o arqueiro Trusevich, que morreu vestido com a camiseta do FC Start. Goncharenko e Sviridovsky, que não estavam na padaria naquele dia, foram os únicos que sobreviveram, escondidos, até a libertação de Kiev em novembro de 1943. O resto da equipe foi torturada até a morte.

Ainda hoje, os possuidores de entradas daquela partida têm direito a um assento gratuito no estádio do Dinamo de Kiev. Nas escadarias do clube, custodiado em forma permanente, conserva-se atualmente um monumento que saúda e recorda àqueles heróis do FC Start, os indomáveis prisioneiros de guerra aos quais ninguém pôde derrotar durante uma dezena de históricas partidas, entre 1941 e 1942.

Foram todos mortos entre torturas e fuzilamentos, mas há uma lembrança, uma fotografia que, para os torcedores do Dínamo, vale mais que todas as jóias em conjunto do Kremlin. Ali figuram os nomes dos jogadores. Abaixo a única foto que se conserva da heroica equipe do Dínamo que foi a campo no "Jogo da Morte" e o nome de seus jogadores.


Goncharenko e Sviridovsky, os únicos sobreviventes, junto ao monumento que recorda a seus colegas.
Na Ucrânia, os jogadores do FC Start hoje são heróis da pátria e seu exemplo de coragem é ensinado nos colégios. No estádio Zenit uma placa diz "Aos jogadores que morreram com a cabeça levantada ante o invasor nazista".

Poster propaganda da revanche.
Esta é a história da dramática "Partida da Morte". O cineasta John Huston inspirou-se neste fato real para rodar seu filme "Fuga para a vitória" (Escape to Victory) de 1982 que chamou muita atenção à época do lançamento porque dele participaram grandes nomes do cinema como Michael Caine, Sylvester Stallone e Max Von Sydow, mas muito mais pela participação de algumas estrelas do futebol, como Bobby Moore, Osvaldo Ardiles, Kazimierz Deyna e Pelé. No filme John Huston fez o que não pôde o destino: salvar os heróis.





13 Comentários
Comentários
13 comentários:
  1. cara, que história mano... é de se emocionar...

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    1. Verdade manolo...esse é mais um episódio triste, mas emocionante da segunda guerra mundial...

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  2. GRANDE HISTORIA !!!!!!!!!!!! EU DESCONHECIA !!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Mas ja que iam morrer mesmo , tinha que enfiar mesmo um saco de gols naqueles nazistas frouxos

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    1. OOOHHH as vezes eu ainda consigo surpreender os mais fodásticos da net...

      Abraço manolo...

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  3. Muito foda..juro que não conhecia essa história...obrigada <3

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    1. Grato pelo elogio e pela participação Carol...

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  4. O Adílson Batista deveria mostrar essa história para o time do Vasco como apoio psicológico para os jogadores para a final do estadual domingo !

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    1. Será que os boleiros de hj em dia comprariam tal ideia?...rsrsrsr

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  5. E pela primeira vez na vida eu achei uma partida de futebol uma coisa incrível .-.
    Realmente inspirador, excelente post õ/

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    1. Digo um filme totalmente baseado na história, fiel a ela*

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  6. Ultimamente o futebol não tem rendido exemplos muito bonitos não...

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  7. Uma história emocionante! Daria um ótimo filme para a temática da II Guerra

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  8. "NUNCA EM MINHA VIDA TIVE TANTO ORGULHO DO FUTEBOL COMO NESTE MOMENTO EM QUE LI ESTA HISTÓRIA".

    muitos que acompanham meus comentários nos blogs sabem do meu repúdio ao nazismo e a qq tipo de tirania, de como sou contra o racismo e a intolerância seja ela qual. for...portanto....


    "Fizculthura!"

    antes morrer de cabeça erguida do quer viver curvado à tirania...

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